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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mário de Sá-Carneiro. A confissão de Lúcio.1961. 2ª edição ( 1ª de 1914). Edições Ática

Mário de Sá-Carneiro


A confissão de Lúcio


Narrativa


1961


2ª edição ( 1ª de 1914)


Edições Ática


Coleção obras completas de Mário de Sá-Carneiro






A CONFISSÃO DE LÚCIO - Mário de Sá Carneiro (resumo)

Novela escrita em primeira pessoa, consiste em uma análise do mundo sensorial. Ao modo próximo dos simbolistas, o narrador vai captando as relações mais íntimas do âmbito da percepção, levando esse conjunto de sensações a rever o conceito de realidade e aproximá-la do fantástico. Nesta obra o narrador, um sujeito provinciano está a contemplar a beleza e a riqueza do mundo cultural e urbano de Paris. O protagonista ao fechar num enredo absurdo, um tanto quanto sem lógica, deixa-se condenar por um crime que, a rigor, não cometera, mas tudo isso é fruto de um amor pervertido que o leva a ficar próximo da loucura: “Cumprido dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi.”
Num primeiro momento a história de desenvolve na Paris de 1895. O narrador, Lucio, nos conta do meio artístico e destaca-se nessa narração a figura de Gervásio Vila Nova: escultor, dono de uma conversa envolvente, embora fosse algo “disperso, quebrado, ardido”. Destaca-se ainda, nesse momento, a admiração que vai desenvolver por uma misteriosa americana, mulher rica e linda: “Criatura alta, magra, de um rosto esguio de pele dourada - e uns cabelos fantásticos, de um ruivo incendiado, alucinante.” Por meio dela fica sabendo da chegada de Ricardo Loureiro, poeta cuja obra era muito admirada.
Numa festa promovida por Gervásio, Lúcio é apresentado a Ricardo. Logo da primeira conversa vai se desenvolver uma grande amizade e admiração entre ambos.
A admirada americana ruiva desaparece de cena, Gervásio também encerra aqui sua participação no enredo, uma vez que retorna a Portugal. Enquanto as conversas com os outros tinham um interesse voltado para o intelectual, o conhecimento, as feitas com Ricardo pareciam atingir a alma de Lúcio. Desse amizade nasce uma relação que pode ser representada como sendo uma projeção de Lúcio sobre o outro, Ricardo. Pressente-se um tom de homossexualidade: “Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.”
Ricardo vai para Lisboa, ficam os amigos separados por um ano, trocam-se cinco cartas durante esse período. Em dezembro de 1897 Ricardo retorna a Paris: “As suas feições haviam-se amenizado, acetinado - feminilizado, eis a verdade.” Lúcio sabia, no entanto, que Ricardo havia se casado. Num jantar Lúcio é apresentado a ela, Marta: “Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural (....) Cheguei a ter inveja de meu amigo.”
Os três ficaram amigos inseparáveis. Participavam em reuniões de amigos intelectuais e artistas, e nessas se destacava a figura de Sérgio Warginsky, músico russo, que no entanto, vai criar uma impressão negativa e de quase ódio em Lúcio.
Envolvido com sua produção literária, por vezes, Ricardo deixava Lúcio a sós com Marta. Entre situações às vezes constrangedoras que beiravam o limite da amizade, Lúcio começa a se sentir envolvido pela figura de Marta. Até que, enfim, Marta torna-se amante de Lúcio. Lúcio acaba se apaixonando por Marta, apesar de continuar a amizade com Ricardo. Estranhamente Lúcio atenta para alguns detalhes da fala de Ricardo, como quando o amigo lhe diz que ao se observar ao espelho não mais se via: “Ah! Não calcula o meu espanto... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Na foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”
Por outro lado, Marta também parecia a Lúcio como uma mulher irreal: “sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.” Nada confirmava sua existência além do perfume penetrante que ficava no leito, precisava não mais provar o amor, mas a existência real dessa misteriosa mulher que tanto se entregava a ele e que traía com intensidade o amigo: “As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.”
Depois de algum tempo, Marta torna-se fugidia, demora-se menos com Lúcio, os encontros tornam mais difíceis. Lúcio começa a desconfiar de Marta e desenvolve um sentimento de ciúme. Nas tardes em que apenas encontra o amigo Ricardo, começa a procurá-la desesperadamente. Uma vez seguindo Marta, descobre que ela fora ao apartamento de Sérgio Warginsky. Por essa época, Lúcio terminara uma peça de teatro e começa a andar pelas ruas, em uma dessas andanças encontra Ricardo, este lhe faz uma estranha afirmação, de que Marta é uma criação de Ricardo: “Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma,. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós dois... (...) E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te deveria dedicar.”
Nesta cena alucinante, Ricardo mata Marta, e então Lúcio descobre que um mistério envolvia essa morte: Marta folheava um livro, em pé, ao fundo da casa. Ricardo dá-lhe um tiro à queima roupa: “E então foi o Mistério... o fantástico Mistério da minha vida...
Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta - não! - era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revolver ainda fumegante!...”
Marta desaparecera, como uma ilusão, uma névoa.

Livro marcante de uma época e de uma personalidade histórica do modernismo português.
Excelente encadernação de carneira com filete a ouro.
Muito bom estado. Miolo impecável

Preço 75€  

com portes registados incluídos para Portugal Continental e ilhas

+ 8€ para correio registado internacional normal
UPS ou correio rápido a orçamentar

Pedidos a 2mitodesisifo@gmail.com ou em www.leiloes.net



Mário-Henrique Leiria. Depoimentos escritos. Contos, poemas e cartas de amor. 1ª edição. 1997. Editorial Estampa

Mário-Henrique Leiria

Depoimentos escritos. Contos, poemas e cartas de amor

Editorial Estampa

Coleção Ficções, 26

1ª edição

1997

340p.







.... A 25 de Novembro de 1975 o General Eanes e o Grupo dos Nove dão um golpe militar para travar Abril montado no esquerdismo galopante. Ficas muito preocupado, temes o regresso ao tempo da Outra Senhora, ao fascismo. Tratas logo de aderir ao PRP - Partido Revolucionário do Proletariado - da Isabel do Carmo e do Carlos Antunes, que insistem na acção armada para defender a Revolução.
- Ó Mário-Henrique: mas se nem uma bengala tu consegues segurar como deve de ser, quanto mais uma espingarda ou metralhadora...
Que te importa! O que é preciso é agitar a ideia da acção armada, ai Carbonária,Carbonária...
Muitas vezes vou bater à tua porta a convidar-te a dar uma volta de carro. Aceitas sempre. De Carcavelos vamos à praia do Guincho e depois subimos à Serra de Sintra. Gostas muito de ir até ao Cabo da Roca. Será por causa da paisagem agreste, ou por ser ali a ponta mais ocidental da Europa? Sabe-se lá o que se passa pelos teus miolos...
Em Janeiro de 1980 és internado no hospital de Cascais. Um lampejo, a Fipsy, a Isabel e, sem dares cavaco aos amigos, passas-te. És um chato!
Bem, acho que já acabei a evocação da tua vida e da tua obra, vou botar aqui um ponto final.
Espera, espera aí um instante que está a chegar um fax. Não me surpreende: é o São Pedro a lamentar-se que não desistes de converter o Império do Céu em República Popular do Purgatório.

créditos de http://www.vidaslusofonas.pt/index.htm
Livro marcante de uma época e de uma personalidade histórica do movimento surrealista português.

Capa e miolo em muito bom estado

Preço 50€  

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

António Viana. Always. Catálogo Exposição 2010. Galeria Novo Século

António Viana

Always

Exposição Galeria Novo Século

11 Novembro 2010 a 4 de Dezembro 2010

Design catálogo Luís Carvalhal


Exposição
54 acrílicos sobre papel manual 
8 acrílicos sobre papel
1 objecto 
Obras de 2006 a 2010





Artista Plástico e Museógrafo


António Viana, nasceu em Coimbra a 19 de Maio de 1947. Realizou a primeira exposição individual em 1966. Tem exposto regularmente desde essa data em Portugal e no Estrangeiro. Além da actividade de artista plástico desenvolve regularmente a actividade de museógrafo, com trabalhos realizados para diversos Museus, Exposições Temporárias e Itinerantes em Portugal e em diversos Países da Europa, América e Ásia. A sua obra está representada em colecções oficiais nacionais e estrangeiras.



Preço : 25€ 
+ portes de 1,7€ para Portugal Continental e ilhas, 3,40€ correio registado
+ 10€ para correio registado internacional
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Pedro Homem de Mello. Eu hei-de voltar um dia.Lisboa: Edições Ática [1966] 1ª edição

Pedro Homem de Mello

Eu hei-de voltar um dia

Lisboa

Edições Ática

1ª edição

[1966] 

19,6 cm x 14,5 cm

136 págs.

Coleção Poesia Fundada por Luís de Montalvor







Pedro Homem de Melo, de seu nome completo Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo, nasceu no Porto, em 1904 e faleceu em 1984, foi um poeta, professor e folclorista português.

Frequentou a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa, onde se formou em Direito. Foi advogado e professor, exercendo funções de direcção de uma escola, no Porto. Notabilizou-se como poeta, tentando conciliar a expressão metafórica elaborada com a tradição popular, o paganismo com a formação católica, a expressão do corpo – às vezes erótica – com valores religiosos. Nem sempre essa conciliação é conseguida e pacífica. Manifestou interesse pelo folclore e pelas danças populares, escrevendo sobre estes assuntos.



Impresso sobre papel superior avergoado.  Exemplar estimado, miolo limpo, capa com sinais de alguma humidade


Preço : 45€ 
+ portes de 1,7€ para Portugal Continental e ilhas, 3,40€ correio registado
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Manuel Grangeia Crespo. Apelo ao Povo. 1ª edição. Edição do autor.[1976]

Manuel Grangeia Crespo

Apelo ao Povo

1ª edição

Edição do autor

[1976]

120p.





OBRA DE COLEÇÃO
RARIDADE

Edição de promoção de uma candidatura e de um Candidato Surrealista às Eleições Presidenciais de 1976.

Livro com texto policopiado de AVISO AO POVO
 para divulgação, e angariação das assinaturas para viabilizar a candidatura Presidencial de Jaime Manuel Brás de Almeida Crespo.








Na obra promove-se a defesa de uma Constituição Popular composta por apenas 3 capítulos:

No 1º Capítulo diz-se que:

- Em cada distrito existirá uma Universidade
- Em cada concelho existirá um Liceu
- Em cada Freguesia existirá uma escola

No 2º capítulo trata da organização do estado popular:

A A nivel Comunal
B A N´vel Municipal
C A Nivel Distrital
D A Nível nacional
          Composta por uma Assembleia Popular Nacional composta por um representante de cada Assembleia  Comunal
e por Moderadores Nacionais: O reitor de uma escola comunal, O reitor de um Liceu e o Reiror duma Universidade.

No 3º Capítulo.... capitulo transitório entre o estado Popular e o Estado Oficial Partidário, gerido por Um Conselho da Revolução

Manuel Grangeia Crespo

Autor dramático nascido em 1939, em Viana do Castelo, e falecido a 23 de março de 1983, em Lisboa, que evolui de um teatro marcado pela influência de Jean Genet, em Os Implacáveis, para uma dramaturgia que, na esteira de Artaud, coloca em relevo o carácter ritualístico e mágico do espetáculo teatral, em O Gigante Verde.


Exemplar como novo, capa e miolo com marcas ligeiras de humidade.
Inclui extra texto comunicado policopiado de promoção da candidatura presidencial



Preço : 75 € 
com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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Maria Teresa Horta, Minha mãe meu amor. 1ª edição, Ilustrada, Rolim, 1986

Maria Teresa Horta

Minha mãe meu amor

1ª edição

Ilustrações extra-texto de Regina Chulam

Edições Rolim

Coleção Ilhas

Capa José Carlos Albernaz

1986

150p






Maria Teresa Horta

por Patrícia Reis, em 22.11.12
Ontem, na entrega do Prémio Máxima a Maria Teresa Horta calhou-me o privilégio de falar sobre ela. Assim:

A Maria Teresa disse:
Estou a fazer marmelada mas como me pode surgir um poema e depois perco a noção do tempo, ligo um alarme. Para não deixar queimar os marmelos com o açúcar. Não posso é deixar que o poema me escape da mão, percebes?

A desobediente disse tudo isto com uma calma imensa, um
riso pequeno guardado no canto de cada palavra.
Podíamos esquecer o cinzento lá de fora e ainda o estranho barulho na cabeça. Somos uma aparição uma da outra entre a marmelada e o poema. Agitamos a solidão, uma da outra, na panela já gasta. Uma colher de pau na mão, sempre na direcção do relógio. Sem pressa.

A minha relação com Maria Teresa Horta é feita destes pedaços. E, através dos seus olhos cor de mar, vejo o mundo de outra forma. Desde que a descobri, por fim, a palavra que melhor me serve surgiu com enorme clarividência: desobediência. Ela é desobediente e eu sou igualmente feita desse molde que não se encaixa em nada.

Há muito que nos separa, a começar pela idade, mas isso pouco nos importa. As nossas conversas fluem como água fresca num riacho e, de repente, pela noite, chega um poema numa letra a azul que a Maria Teresa escolhe e, no fim, a assinatura para aqueles que ama: beijo-te de te adorar. Nunca ninguém me tinha escrito nada de semelhante: beijo-te de te adorar. O amor entre as mulheres, amizade que nos cola e não se explica, nasce de uma forma algo inusitada. É um mistério. E, ao mesmo tempo, um regresso a um lugar de consolo, de renascimento.
Eu, a admiradora, ela, a escritora, poetisa, activista que tanto me tinha dado.

Leio a Maria Teresa desde os meus 13 anos.

No ano passado li e reli as Luzes de Leonor e nunca perco a sua poesia de vista. Preciso que esteja perto. E preciso ainda de um sentido ético que existe na Maria Teresa e que, ligado à desobediência e a um sentido político de cada acto individual, define a sua maneira de estar e ver o mundo. Não é – nunca foi ou será – uma mulher como as outras, uma acomodada, comodista, politicamente correcta, calada, submissa. No entanto, nada disto invalida o outro lado da moeda. É que com a Maria Teresa aprendemos a paixão, o empenho, o entusiasmo, a não desistência que é diferente da militância cega e fundamentalista.

Os poemas ditos eróticos de Maria Teresa são poemas de amor e ela carrega em si, na sua pele, na escrita, um amor imenso por pessoas que a rodeiam, do marido, Luís, ao filho Luís Jorge, à nora e filha de coração Antónia e aos netos Bernardo e Tiago. Mas há mais outros laços e rotinas que a encantam. As sextas-feiras da família. O bolo que faz, a marmelada que pode queimar e, acima de tudo, a ideia de que a escrita está na ponta dos dedos, no fim ou princípio de um caudal de alma que será derramado, diariamente, num poema. E um poema pode ser uma frase ou um desabafo. Ou, para quem saiba entender, um exercício de expulsar a tristeza. Pelo menos de tentar expulsar a tristeza.

Há um certo espelho da vida da Teresa que eu encontro na minha. Talvez por isso tenha demorado tanto tempo a ter a coragem de lhe falar. Depois disso nunca mais nos largámos e sei que será assim.

Esta homenagem, ou qualquer outra, comove-me e enche-me de orgulho, já que todas as vezes que alguém acarinha, lê e apreende o que Maria Teresa Horta anda a escrever há mais de 52 anos (faz este ano 52 anos de vida literária, teve o seu primeiro prémio como um prémio de carreira da revista Máxima em 2008 e o Dom Dinis no ano passado) eu acredito que fico menos sozinha no mundo. Tudo graças a esta mulher absoluta, a minha nossa senhora dos anéis.

Tiragem de 1650 exemplares em papel superior. Livro como novo, capa, lombada e miolo limpos


Preço : 35€ 
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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Jorge Amado, A Morte e a morte de Quincas Berro d' água. 1ª edição, Junho 1978, Europa-América

Jorge Amado

A Morte e a morte de Quincas Berro d' água

1ª edição 

Junho 1978

Publicações Europa-América

Obras de Jorge Amado, 19

100p


 





A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água*

https://www.facebook.com/pages/Jorge-Amado/49408359282?fref=ts

11 de Março de 2009 às 12:04
Cap 1


ATÉ HOJE PERMANECE CERTA CONFUSÃO em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo). 
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais Mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis, Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem eles, vitoriosamente, o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio-dia e com esse simples papel – só porque contém letras impressas e estampilhas – tentam apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro Dágua até sua partida, por livre e espontânea vontade, como declarou, em alto e bom som, aos amigos e outras pessoas presentes. 
A família do morto – sua respeitável filha e seu formalizado genro, funcionário público de promissora carreira; tia Marocas e seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito num banco – afirma não passar toda a história de grossa intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes à margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser as grades da cadeia e não a liberdade das ruas, o porto da Bahia, as praias de areia branca, a noite imensa. Cometendo uma injustiça, atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da malfadada existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara desgosto e vergonha para a família. A ponto de seu nome não ser pronunciado e seus feitos não serem comentados na presença inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de saudosa memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima e do respeito de todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte, senão física pelo menos moral, datada de anos antes, somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista da morte, um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem sido os acontecimentos posteriores – a partir do atestado de óbito até seu mergulho no mar – uma farsa montada por ele com o intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações da rua. Não era ele homem de respeito e de conveniência, apesar do respeito dedicado por seus parceiros de jogo a jogador de tão invejada sorte e a bebedor de cachaça tão longa e conversada. 
Não sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro Dágua pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.  


Exemplar como novo, capa e miolo limpos



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