Sei que voltaste a Portugal em 1970. Reencontramo-nos em Lisboa em 74,
depois do 25 de Abril. Tu empenado porque, só para te chatear, a tua estrutura
óssea começa a desabar...
Eu bem sabia que em 73 lançaras os Contos do Gin-Tonic e nos
princípios de 74 os Novos Contos do Gin. Mas só depois da Revolução dos
Cravos é que a tua prosa pega como fogo em palheiro, sucessivas edições de um e
outro livro. Como é possível a surrealidade converter-se de repente em best
seller? Tenho um exemplo à mão que talvez explique o fenómeno: durante a
maré-cheia de Abril os meus três filhos navegam da adolescência para a
juventude. E é a ti, ó Mário-Henrique, é justamente a ti que eles escolhem para
figura emblemática do vendaval. Os teus contos e os novos contos do
Gin-Tonic, por causa da irreverência e rebeldia, são para eles apetitosas
cartas de marear. Está explicado? Faço-me entender?
Já tinhas dado à sola desta
vida quando o actor Mário Viegas, no teatro e na tv, começou a
interpretar os teus Contos do Gin-Tonic. Nós de olhos fixos ora no palco,
ora na tela, pontaria, garra e graça, ver e ouvir, ao mesmo tempo fruir dois
Mários, o Leiria a escrever, o Viegas a dizer. Pena que não tivesses assistido
aos espectáculos, bem sentimos a tua falta. Em 96 o Mário Viegas passou-se para
o Além, também ele. Acho que foi à tua procura.
Agora, para recordar os
velhos tempos, vou beber, de enfiada, nove dos teus copos de Gin-Tonic.
Aí vou eu, aí vens tu:
TORAH
Jeová achou que era altura
de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés
foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça
ardente.
Quando chegou ao cimo,
tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em
erro.
No dia seguinte Moisés
desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu
povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito.
Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora.
Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço
militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se
vê.
SEPARATA
GRATUITA
O QUE ACONTECERIA
SE O ARCEBISPO DE BEJA
FOSSE AO PORTO
E DISSESSE QUE ERA NAPOLEÃO
Toda a gente acreditava que
era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson,
tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do
Porto.
Então o arcebispo
dizia:
- Sou a Josefa de
Óbidos.
Ainda acreditavam que era,
embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o castelo de
Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso,
davam-lhe trouxas d’ovos.
Nessa altura, convicto, o
arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de
Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe
imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.
CARREIRISMO
Após ter surripiado por três
vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a
caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois
anos, com chofer fardado.
Era Director Geral das
Polícias. Seu pai teve o enfarte.
ÚLTIMA
TENTAÇÃO
Então ela quis tentá-lo
definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu
encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa
desesperante frustração.
Não há dúvida que o Paraíso
está a tornar-se cada vez mais chato!
CONTABILIDADE FINAL
Parece mentira, mas ainda
não recebi os rublos moscovitas. E esta, ein! Só tenho coisas que me ralem.
RIFÃO
QUOTIDIANO
Uma
nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia
chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a
é o
que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar o
que acontece
EXAGEROS
O Alfredo atirou o jornal ao
chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:
- Estes jornalistas! Passam
a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal,
foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter
descaramento.
Ajeitou-se melhor no sofá e,
realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.
CASAMENTO
“Na riqueza e na pobreza, no
melhor e no pior, até que a morte vos separe.”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que
assinei.
Portanto estrangulei-a e
fui-me embora.
HISTÓRIA EXEMPLAR
Entrei.
- Tire o chapéu – disse o
Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o
Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou
o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e
dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.
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