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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Jorge Amado, A Morte e a morte de Quincas Berro d' água. 1ª edição, Junho 1978, Europa-América

Jorge Amado

A Morte e a morte de Quincas Berro d' água

1ª edição 

Junho 1978

Publicações Europa-América

Obras de Jorge Amado, 19

100p


 





A Morte e a Morte de Quincas Berro D'água*

https://www.facebook.com/pages/Jorge-Amado/49408359282?fref=ts

11 de Março de 2009 às 12:04
Cap 1


ATÉ HOJE PERMANECE CERTA CONFUSÃO em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo). 
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais Mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis, Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem eles, vitoriosamente, o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio-dia e com esse simples papel – só porque contém letras impressas e estampilhas – tentam apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro Dágua até sua partida, por livre e espontânea vontade, como declarou, em alto e bom som, aos amigos e outras pessoas presentes. 
A família do morto – sua respeitável filha e seu formalizado genro, funcionário público de promissora carreira; tia Marocas e seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito num banco – afirma não passar toda a história de grossa intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes à margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser as grades da cadeia e não a liberdade das ruas, o porto da Bahia, as praias de areia branca, a noite imensa. Cometendo uma injustiça, atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da malfadada existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara desgosto e vergonha para a família. A ponto de seu nome não ser pronunciado e seus feitos não serem comentados na presença inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de saudosa memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima e do respeito de todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte, senão física pelo menos moral, datada de anos antes, somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista da morte, um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem sido os acontecimentos posteriores – a partir do atestado de óbito até seu mergulho no mar – uma farsa montada por ele com o intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações da rua. Não era ele homem de respeito e de conveniência, apesar do respeito dedicado por seus parceiros de jogo a jogador de tão invejada sorte e a bebedor de cachaça tão longa e conversada. 
Não sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas Berro Dágua pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.  


Exemplar como novo, capa e miolo limpos



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Masoch - A Vénus de Kazabaïka (Afrodite, 1ª edição, 1966)

Leopold von Sacher Masoch

A Vénus de Kazabaïka [ vulgo a Virgem das Peles ou Virgem de Vison]

Afrodite [Francisco Ribeiro de Mello]

1ª edição

1966

215p

Tradução de Ana Hatherly 

Prefácio de Júlio Moreira 

Colaboração gráfica de António Sena da Silva

Capa: 

Vénus ao Espelho – Ticiano (Museu de Washington)


Edição Integral, com encenações fotográficas em folhas extra-texto.


"O gráfico foi o arquitecto António Sena da Silva, grande amador de fotografia, que também foi o autor das ilustrações que tanto enriqueceram a edição. Nessas ilustrações, os figurantes eram: um empregado do armazém de Fernando Ribeiro de Mello e a mulher da limpeza, uma atraente morena. A caracterização e a encenação estiveram a cargo do pintor João Vieira, que se encarregou também de arranjar adereços. 

A cadeira foi emprestada por Natália Correia. O cenário era simplesmente um canto do armazém onde Fernando Ribeiro de Mello guardava os livros que editava.

Não assisti à sessão de fotografia nem fui eu quem seleccionou as fotos para as ilustrações, que nitidamente obedeciam a um plano, mas fui eu que escolhi as legendas, aspecto importante, uma vez que as fotos correspondem a diversos passos da narrativa que era necessário identificar correctamente.

Pelo seu estilo saborosamente ingénuo, as ilustrações incluídas nesta edição contribuíram para acentuar o carácter kitsch e transgressor da obra, tornando-se um chamariz irresistível para o público." 

Ana Hatherly, no prefácio da segunda edição de A Vénus de Kazabaïka, de Sacher-Masoch, (Relógio d’Água Editores, 1994)








Do prefácio:


«[...] Diz-se que noutras civilizações que nos precederam, e terão chegado mesmo a coexistir com a nossa, o amor era uma fonte de alegria, um domínio superior de prazer e plenitude.

Na nossa, a principal realização erótica (termo derivado de Eros, devindade [sic] da antiguidade clássica difìcilmente inteligível nos nossos dias) reside no “pecado”.
[...] Nos traços comuns que reúnem Sade e Masoch, um outro aspecto, independente, pelo menos superficialmente independente, das suas “concepções” do amor, que os celebrizaram, parece digno de nota. Ambos, nascidos nas melhores famílias dos seus países, pertencendo a uma aristocracia com todos os previlégios, tomaram posição ao lado das correntes políticas mais avançadas do seu tempo.
Não foi só por ter atentado contra a moral que Sade passou a vida na prisão. [...] Sade não só colaborou activamente na revolução francesa, como foi um dos primeiros a denunciar o ditador Napoleão.
Masoch, por seu lado, foi um conhecido sociólogo do seu tempo, “autor dum sistema político aparentado com o socialismo de Tolstoi e o liberalismo de Saint-Simon” [...].
Ambos, Sade e Masoch, são portanto indivíduos de vanguarda, atentos às directrizes históricas que têm conduzido as sociedades humanas de maneira a confirmar a sua própria visão.
Não são os “taradinhos sexuais” que a vista curta ou as más intenções têm querido fazer deles, próprios para alimentar edições pornográficas, mas sim os desmistificadores lúcidos e atentos ao mundo dentro e fora de si, dispostos a ir, com o próprio martírio, ao fundo das coisas. [...]»
Excelente exemplar, miolo muito limpo. Marca de copo na capa de brochura, como se pode verificar na foto.




Exemplar como novo, capa e miolo com marcas ligeiras de humidade


Preço : 75€ 
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António Tavares Manaças, Falar António, Lisboa, Contraponto [1976] 1ª edição e 2ª edição [1978]


António Tavares Manaças

Falar António


As duas edições da Contraponto de Luiz Pacheco

Lisboa, s.d. [1976, segundo a BNP]

Contraponto

[1.ª edição]

18,5 cm x 12,5 cm

80 págs.


texto impresso a azul ultramarino

exemplar n.º 233 de uma tiragem de 500 exemplares

em muito bom estado de conservação

ASSINADO PELO AUTOR

e

2ª edição

[1978, segundo a BNP]

Contraponto

Ilustrações de João Manaças

127p + 5 p204 mm










Transcrito de Frenesi PCD:



Diz-nos o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (vol. V, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2000):


«Passou a vida sentado no estirador, costumava dizer, a fazer riscos de plantas, alçados, cortes, como “construtor” de cidades com suas casas de várias cores. Do muito ou pouco que nos deixou na sua prosa de ficção, espécie de “cronografias” descritivas e sentimentais, onde evidenciou uma visão poética e magoada de olhar o mundo e dele captar os sinais visíveis de uma profunda tristeza ou desilusão, talvez bastem apenas os breves livros que decidiu publicar nos últimos anos de vida. E através deles se compreende que, na recitação do tempo em que viveu, se patenteia afinal uma clara “originalidade” literária na forma de escrita que soube fazer pulsar no ritmo da sua vida: discreta e atormentada, no silêncio do atelier ou no convívio de alguns amigos de um quotidiano partilhado de grande e sincera amizade.»

Deve-se acrescentar que estes seus referidos amigos têm nomes como Herberto Helder, António José Forte, Vitor Silva Tavares, Ricarte Dácio, Virgílio Martinho, Aldina Costa, Eurico Gonçalves, Pedro Oom, Ernesto Sampaio,... o mesmo é dizer a derradeira geração de surrealistas. Neste sentido literário, justifica-se a sua participação na última colectânea de combate editada nas vésperas da queda do fascismo, o volume colectivo Coisas (& etc, Lisboa, Fevereiro / Março de 1974).


A vertente edição Contraponto acrescenta o facto de ser da responsabilidade do escritor e editor (ou vice-versa) Luiz Pacheco. O recente catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal, Luiz Pacheco – 1 Homem Dividido Vale por 2 / Contraponto – Bibliografia (co-edição Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009), refere-se-lhe, evidentemente.


Exemplares muito estimados, com capa e miolo limpos

Preço  da 1ª edição: 100€ 
Preço da 2ª edição: 80€
Comprando as duas edições: 150€com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Virgílio Martinho, Relógio de Cuco, 2ª edição ( 1ª da Estampa), Contraponto, 1997

Relógio de Cuco

Virgílio Martinho

Editora Contraponto [Luiz Pacheco]

Logotipo da Contraponto - Paulo Guilherme d'Eça Leal

Palmela

2ª edição[Março de 1997]

126p .


Livro raro (de coleção)



Virgílio Martinho ou o sentido do paraíso perdido

NA sua descida aos corredores da memória que povoaram a infância, pelos lugares perdidos e nunca esquecidos de Setúbal, Grândola, Barreiro ou Lisboa, Virgílio Martinho redescobre nas quatro histórias deste Relógio de Cuco, agora reeditado como prova de amizade e admiração literária de Luiz Pacheco, a memória das sombras e vozes que encheram esse imaginário ou paraíso perdido, numa linguagem feita de sinceridade e pouca ficção, embora pela escrita desenvolta e sincopada, povoada de imagens e sinais que chegam dos confins do tempo, reinvente o sentido de uma infância que teve os seus matizes de pobreza ou de alegria. Mas o que mais sobressalta nestas histórias que entre si nitidamente se encadeiam é, sobretudo, esse desejo de exorcizar pela memória e olhos já bem adultos os medos e conflitos que ficaram longe, nas brincadeiras despreocupadas ou na descoberta do sexo, e assim deram corpo a uma forma pessoal de estar na vida e na literatura.
Desde Orlando em Tríptico de Aventuras (1960), passando por O Grande Cidadão (1964), para desembocar neste Relógio de Cuco (1973), Virgílio Martinho sempre pautou a sua atitude de escritor em termos de uma absoluta verdade literária, que consolidou de livro a livro, obedecendo sempre a coordenadas pessoais que o fizeram aproximar-se de uma clara forma de participação política e denúncia social, ainda relacionada de perto com uma certa intervenção surrealista, evidenciada logo no livro de estreia que foi a narrativa Festa Pública (1958), mas definindo-se Virgílio Martinho como uma das vozes literárias que, longe dos círculos em que se costumam forjar as cotações, não podem ser assim tão declaradamente silenciadas.
Porém, dessa vinculação surrealista evidenciada nos primeiros livros e da sua prosa ficcionista evidenciada em A Caça e O Concerto de Buzinas, Virgílio Martinho percorre depois os caminhos de uma mais nítida intenção política que se torna significativa e expressiva no plano do teatro, como se observara a partir de Filopopulus, A Sagrada Família e 1383, adaptação e leitura muito pessoal da crónica de Fernão Lopes, pela recuperação de um discurso e propósito dramatúrgico de acentuado carácter brechtiano, que se complementou na actividade teatral que foi constante durante largos anos junto da Companhia de Teatro de Almada. Sim, é por aí que se determinam as balizas literárias de um escritor que nunca pediu licença para estar ou existir, certo e seguro da importância dos livros que publicara, sem precisar de favores de ninguém e nem sequer os exigir, embora seja bom reconhecer a qualidade de uma escrita tão coerente e pessoal que, a seu modo, sempre procurou participar e intervir na nossa vida cultural.
Por isso, relendo estas breves histórias de Relógio de Cuco, tal como já acontecera, dentro de outra perspectiva ou focagem narrativa, nos contos de O Menino Novo (1989), reconhece-se esse carácter claramente 'realista' ou o sentido e consciência de que o paraíso perdido da sua infância pôde ser reconstruído pelos fios da memória, pouco complacente e nada interessada em suavizar com outras cores o que foi da sua angústia de menino pobre, nado e criado em tempos bem cinzentos e tristes, na lembrança que sempre perdura de um pai ferroviário e da mãe às voltas com os problemas da casa, enfim, um quadro social e humano igual a tantos outros, mas que Virgílio Martinho soube recriar de forma admirável e pujante, nas belíssimas histórias agora reeditadas pela mão amiga de Luiz Pacheco.

Serafim Ferreira
VIRGÍLIO MARTINHO
RELÓGIO DE CUCO, 2ª. edição.
Ed. CONTRAPONTO / Palmela, 1997. 


Exemplar novo, capa e miolo limpos

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Ruy Belo, Homem de palavra(s). Lisboa: Cadernos de poesia, 9. Publicações D. Quixote.

Ruy Belo

Homem de palavra(s)

Lisboa

Cadernos de poesia, 9

Publicações D. Quixote

Orientação gráfica Fernando Felgueiras

Fotografia da capa António Xavier

1ª edição

1969

139p. + 4

18 cm






Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira em 1933. Estudou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. Doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Em 1967, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa .De 1971 a 1977 foi Leitor na Universidade de Madrid. Tal como Jorge de Sena foi forçado a sair de Portugal porque não arranjou trabalho. Neste país, não houve lugar para estes dois grandes poetas que foram próximos, amigos. "Portugal não é pátria, mas país" escreveu Ruy Belo.
Professor, editor, poeta , jornalista, tradutor, ensaísta, crítico literário, Ruy Belo morreu subitamente aos 45 anos de idade, em 1978. 

O seu nome ocupa um lugar de excelência na poesia portuguesa da segunda metade do séc. XX. Poesia que não é militante, elaborada com uma linguagem inovadora e revolucionária, fora dos cânones do neo-realismo e de qualquer escola. Ruy Belo viveu muito atento à passagem do tempo, à efemeridade, à inquietação, à angústia e fez disso poesia, " a minha vida passou para o dicionário que sou". 

Da sua obra poética fazem parte "Aquele Grande Rio Eufrates" (1961), "O Problema da Habitação" (1962), "Boca Bilingue" (1966), "Homem de Palavra(s)" (1969), "Transporte no Tempo" (1973), " País Possível "(1973), " A Margem da Alegria" (1974), "Toda a Terra" (1976),"Despeço-me da Terra da Alegria" (1977).
A Editorial Presença, com organização e comentários de Joaquim Manuel Magalhães, tem publicada em dois volumes a obra Poética de Ruy Belo. Entretanto, o Círculo de Leitores e a Assírio & Alvim reuniram-na num único volume, publicando-a sob o título de "Todos os Poemas".

Exemplar muito estimado, capa e miolo limpos

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António Ramos Rosa. Nos seus olhos de silêncio. Lisboa. Cadernos de Poesia, Publicações D. Quixote. 1ª edição

António Ramos Rosa

Nos seus olhos de silêncio

Lisboa

Cadernos de Poesia, 14

Publicações D. Quixote

1ª edição

100+4p

18cm





Citado Público 23/09/2013

Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, de O Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa, no Hospital Egas Moniz.

Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), traduziu muitos poetas e prosadores estrangeiros, sobretudo de língua francesa, e organizou uma importante antologia de poetas portugueses contemporâneos (a quarta e última série das Líricas Portuguesas). Era ainda um dotado desenhador.


Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.

Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra — “Estou vivo e escrevo sol” —, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel.

Para Pedro Mexia, poeta e crítico, Ramos Rosa mostrou, nomeadamente através das revistas que dirigiu e da primeira fase da sua obra poética, “que era necessário superar a dicotomia fácil entre a poesia ‘social’ e a poesia ‘pura’, e que o trabalho sobre a linguagem não impedia o empenhamento cívico”. Como ensaísta, continua Mexia, Ramos Rosa esteve atento ao panorama europeu e mundial, de René Char a Roberto Juarroz, e aos autores portugueses das últimas décadas, incluindo os novos: “Descobri muitos poetas através de obras como Poesia, Liberdade Livre ou Incisões Oblíquas".

Autor "muitíssimo prolífico", "nunca se afastou do seu caminho pessoal, mesmo quando a abundância e a insistência numa 'poesia sobre a poesia' fizeram com que nos esquecêssemos da sua importância decisiva."


Uma unidade muito grande

O escritor e crítico Fernando Pinto do Amaral prefere eleger como "verdadeiramente singular" em Ramos Rosa “a atmosfera muito espacial que a sua poesia, ou melhor, os seus ciclos de poemas, são capazes de criar”. Atmosfera essa que resulta de uma “conjugação precisa de palavras”: “Isso vê-se muito bem em O Ciclo do Cavalo, de que gosto particularmente, e em Gravitações, onde se sente que há como que uma força cósmica que atrai e repele as palavras e a própria natureza”.


A ideia de respiração é, aliás, muito importante na obra deste autor, continua Pinto do Amaral, admitindo que não é fácil explicar o que dela emana, em parte porque passou por várias fases, “muito distintas”. É numa delas, mais realista, “ligada ao quotidiano e às suas burocracias”, que se insere um dos seus poemas mais conhecidos, O Boi da Paciência. “Ele, que também foi um funcionário de escritório, mostra aqui como pode ser monótona a vida e como é preciso combater a monotonia”: “Mas o homenzinho diário recomeça / no seu giro de desencontros/ A fadiga substituiu-lhe o coração”, escreve.

“Tudo está em tudo na poesia de Ramos Rosa”, “como no movimento constante de inspirar e expirar”, resume o escritor, defendendo que se trata de um poeta que precisará sempre de antologias: “Um jovem leitor que queira iniciar-se na sua poesia vai sentir-se muito facilmente perdido. Ele escreveu muito, publicou muito. Fazer antologias suas não é, no entanto, tarefa fácil, porque há uma unidade muito grande em cada livro, o que torna difícil escolher um poema em detrimento de outro”.


Obra lírica imensa

Nascido em Faro em 1924 — faria 89 anos a 17 de Outubro —, António Ramos Rosa frequentou ali o liceu, mas, por razões de saúde, não terminaria os estudos secundários. Uma escassez de estudos formais que a sua avidez de leitor não tardou a compensar largamente.

Trabalhou algum tempo como empregado de escritório — experiência que inspirou o célebre Poema de Um Funcionário Cansado, incluído no seu livro de estreia —, ao mesmo tempo que dava explicações de português, inglês e francês e traduzia autores estrangeiros, primeiro para a Europa-América e depois para outras editoras.

Envolveu-se, logo após o final da segunda guerra, na oposição ao salazarismo, militando no MUD Juvenil e participando em manifestações. Nos anos 50 ajudou a fundar e coordenou várias revistas literárias, incluindo Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia, nas quais colaborou com textos de crítica literária e poemas.

Embora publicasse poemas em revistas desde o início dos anos 50, o seu primeiro livro só saiu em 1958, aos 34 anos. Mas a partir desta estreia algo tardia, nunca mais deixará de editar poesia a um ritmo impressionante.

Se O Grito Claro é ainda aproximável do neo-realismo, mesmo que já com tonalidades muito peculiares, a escrita de Ramos Rosa não tarda a destacar-se quer deste movimento, quer das inevitáveis influências do surrealismo, enveredando pelo caminho de uma poesia mais elementar, deliberadamente ancorada, sobretudo nos livros iniciais, numa certa rarefacção vocabular. Uma característica que, a par da própria extensão da obra, terá ajudado a gerar o equívoco de que esta seria uma poesia monocórdica. Nada mais falso. Sem detrimento da sua consistência enquanto obra, e mesmo essa talvez mais resultante da fidelidade a um percurso do que propriamente da reincidência de tópicos obsessivos (que também existe), a poesia de Ramos Rosa não só tem ciclos muito marcados como é mais variada, do ponto de vista formal e discursivo, do que se poderia pensar.

Bastante indiscutível é a importância de António Ramos Rosa, quer como poeta quer como crítico, para a evolução da poesia portuguesa (e do gosto dos respectivos leitores) ao longo dos anos 60 e no início da década seguinte. Na atenção à materialidade do texto, numa dimensão política que dispensava a explicitude do neo-realismo, no rigor construtivo, até numa certa contaminação filosófica, a poesia de Ramos Rosa tinha, nos anos 60, afinidades bastante óbvias com poetas como Carlos de Oliveira ou Gastão Cruz. No entanto, foi-se tornando nela cada vez mais insistente a procura de uma espécie de voz original que pudesse cantar o mundo ao mesmo tempo que o criava. E se durante algum tempo a sua poesia ainda inclui explicitamente, como um dos seus tópicos, o fracasso desse impossível retorno à origem, vai depois tornar-se, cada vez mais, um hino reconciliado e extasiado com a diversidade exultante do real, uma música que destaca a sensualidade das formas — de uma mulher, de uma planta, de um curso de água, do flanco de um cavalo, mas também das próprias palavras — ao mesmo tempo que ela própria contribui para erotizar o mundo.


Funeral na quarta-feira

Livros como O Ciclo do Cavalo (1975) ou Volante Verde (1986) costumam ser invocados, e com boas razões, como alguns dos momentos cimeiros desta imensa obra lírica. Mas há obras recentes que tiveram pouco eco crítico e são notáveis, como o criativo Nomes de Ninguém (1997), cujos poemas partem todos de nomes próprios inventados, ou Deambulações Oblíquas (2001), onde encontrámos um inesperado Ramos Rosa a ironizar com o modo como foi sendo lido: "Alguns dizem que eu escrevo de mais/ como se tivesse escrito alguma coisa/ Não, todas as minhas inscrições foram acenos/ a algo que nunca atingi/ e que era a única coisa que eu desejava dizer".


Segundo informação da família, o corpo do poeta será velado terça-feira a partir das 18h30, na Capela do Rato, em Lisboa, estando prevista para as 21h30 uma celebração pelo padre e poeta José Tolentino Mendonça. O funeral parte na quarta-feira de manhã, pelas 10h30, para o Cemitério dos Prazeres, onde será sepultado no Jazigo dos Escritores. 

com Isabel Salema e Lucinda Canelas

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Herberto Helder. Servidões. Lisboa: Assirio & Alvim.Edição única Maio 2013.

Herberto Helder

Servidões

Lisboa

Assírio & Alvim

Maio 2013 [Edição única]

Capa cartonada com xilogravura de Ilda David

Coleção Poesia inédita portuguesa, 137

124p









Transcrito DN artes 27-5-2013


"Se há poeta que não tem onde caiba e não se deixa apanhar por rótulos, grupos, modas e... jornalistas é Herberto Helder. No entanto, não há poeta que esteja tão próximo como ele da alma do mundo. A publicar livros desde 1958, aquele que é considerado o bardo da poesia portuguesa tem hoje 83 anos e dá-nos agora,
'Servidões' (Assírio & Alvim), provavelmente o seu livro mais confessional de sempre.
Num tempo em que os artistas preferem investir no culto da sua imagem e não da sua obra, pode até parecer que Herberto faz o mesmo, mas ao contrário: escondendo-se, recusando prémios, reverências, benesses. Só que enquanto a obra dos primeiros definha, a obra de Herberto, fruto de uma reescrita constante, de um trabalho árduo e meticuloso, de uma singular capacidade de estender os limites da língua portuguesa até universos e experiências totalmente novas, continua "pujante, viva e com muitos seguidores", disse ao DN Vasco
David, o responsável editorial da Assírio & Alvim.
Tendo começado a escrever dentro do chamado segundo movimento surrealista na Lisboa do final dos anos 50, Herberto é sobretudo um poeta que integrou profundamente a modernidade no sentido em que "usou técnicas do surrealismo, do concretismo, do dadaísmo ao mesmo tempo que fez coisas como A Máquina de Emaranhar Paisagens em que usou fragmentos da lírica camoniana, do Inferno, de Dante, e do Apocalipse bíblico retomando a tradição culta dos antigos poetas", explicou ao DN o escritor Helder Macedo, amigo do poeta desde os anos 50 e que descreve Herberto Helder como "o bardo e o profeta. É um mago moderno. Um místico sem Deus".

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