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domingo, 24 de março de 2013

Angola-Como eu a vi em 1930-31 José Sousa e Faro 1ª edição 1932


Angola
Como eu a vi em 1930-1931
Contra-Almirante José de Sousa e Faro
1ª edição
1932
Edição do autor
Impressora da Armada
Ilustrado


Livro muito raro e de coleção


Sobre o Contra-Almirante José de Sousa e Faro.

Contemporâneo e amigo de Gago Coutinho que convidou quando era governador de S. Tomé para um célevbre levantamento geodésico do arquipélago, que criou alguns embaraços na colónia (ver https://repositorio-iul.iscte.pt/bitstream/10071/3897/1/Pinto_STP_235_246.pdf), Jose de Sousa e Faro foi Ministro da Marinha do 18º governo republicano ( de João Tamagnini Barbosa), Governador da Zambésia, de São Tome e de Angola no periodo conturbado politicamente de 1930-1931.



Jose de Sousa e Faro foi proprietário de uma das maiores roças de cacau e café de São Tomé e é uma das figuras retratadas de forma positiva no romance de Miguel de Sousa Tavares - Equador, pela forma como lidou com os outros colonos, e com a repressão da rebelião dos angolares da ilha do Principe bem como no caso fatídico do Governador de São Tomé, Bernardo José de Sousa Soares de Andrea e decorrente da relação amorosa com a mulher do cônsul inglês, enviado para fiscalizar o uso do trabalho escravo na colónia, já depois da abolição oficial da escravatura.



Uma pessoa fascinante e um livre pensador no quadro duma relação muito especial afetiva mas independente e livre com o Presidente do Conselho António de Oliveira Salazar.








Livro raríssimo sobre um período crítico da história angolana e colonial do Estado Novo

Encadernado em lona
Em estado como novo para a idade . Miolo impecável

Preço 50€  

com portes registados incluídos para Portugal Continental e ilhas

+ 8€ para correio registado internacional normal
UPS ou correio rápido a orçamentar

Pedidos a 2mitodesisifo@gmail.com ou em www.leiloes.net

terça-feira, 12 de março de 2013

Um homem dividido vale por dois, Luíz Pacheco - 1ª edição -2009


Um homem dividido vale por 2

seguido de:

Contraponto - Bibliografia

Luiz Pacheco

1ª Edição

2009

Coordenação de Luís Campos




Luiz Pacheco | Contraponto: um homem dividido vale por dois
EXPOSIÇÃO | 26 de Novembro 2009 a 27 de Fevereiro 2010 |

Escritor e editor, Luiz Pacheco (1925-2008) desde cedo revelou uma personalidade polémica e com reputação de «marginal»; mas não foi cedo que se revelou literariamente e, aliás, de um modo esparso, em revistas e jornais. Próximo do surrealismo, de cujos cultores mereceu, aliás, amizade como Mário Cesariny ou António Maria Lisboa, classificou-se a si mesmo, porém, como neo-abjeccionista.

A exposição organizada na BNP, com profuso (duplo) catálogo editado conjuntamente com a Leya, procura reunir a dupla faceta de autor e editor sob a sugestiva epígrafe «1 homem dividido vale por 2». Descerra-se, deste modo, uma prolífica actividade de poeta, prosador e crítico de Caca, cuspo & ramela (1958) ou Comunidade (1964), a Crítica de circunstância (1966) ou Diário remendado. 1971-1975 (2005); em reverso, as inúmeras edições do seu Contraponto, editora por si criada em 1950 e que foi matriz de diversos autores de vanguarda.



Livro marcante de uma época e de uma personalidade histórica do movimento surrealista português.

Inventário bibliográfico completo e ilustrado (capas das obras) da obra de Luiz Pacheco, tanto como escritor como editor através da célebre editora Contraponto

Em estado novo. Miolo impecável

Preço 45€  

com portes registados incluídos para Portugal Continental e ilhas

+ 8€ para correio registado internacional normal
UPS ou correio rápido a orçamentar

Pedidos a 2mitodesisifo@gmail.com ou em www.leiloes.net



domingo, 3 de março de 2013

Os miseráveis - Victor Hugo - Coleção completa em 5 volumes.

Os miseráveis

Victor Hugo

Círculo de leitores

5ª edição portuguesa (1ª círculo de  Leitores)

1978

Encadernados e ilustrados

Tradução de Carlos dos Santos

Capa de Manuel Dias

5 volumes(pags. 398+352+337+439 + 402)






Créditos de: 
 FAMALICÃO, NORTE, PORTUGAL
Bibliomaníaca e melómana.

http://hasempreumlivro.blogspot.pt/



Victor Hugo nasceu em Besançon, no Doubs, em 1802. Foi o terceiro filho de Sophie Trébuchet e Joseph Hugo, oficial do exército de Napoleão. Este foi proclamado Imperador dois anos após o nascimento de Hugo, mas a monarquia dos Bourbon foi restaurada após o seu oitavo aniversário. Desta forma, a infância do escritor é marcada por acontecimentos de fulcral importância na História de França – e da Europa – os quais acabarão por se reflectir na sua escrita e, inevitavelmente, projectados em Os Miseráveis”. Hugo é produto, do ponto de vista ideológico, da mentalidade de ambos os progenitores que defendiam ideias opostas: a mãe, católica radical, defendia a Casa Real e a causa realista, estando associada ao boato de que teria, não obstante a sua religiosidade, sido amante de um general que teria conspirado contra Napoleão; o pai, Joseph, era pelo contrário, ateu republicano, vendo em Napoleão um herói nacional. O casal separou-se anos mais tarde por incompatibilidades diversas.

Os trabalhos do início da carreira de Victor Hugo como escritor mostram uma tendência simpatizante para com a Igreja e a Casa Real mas, após a Revolução de 1848, a Autor começa a demarcar-se da educação católica e monárquica inculcada pela mãe, assumindo a postura de um livre-pensador. Tendo iniciado a carreira de escritor em idade muito precoce, foi considerado um menino prodígio, tendo obtido, apenas com quinze anos, em 1917, o Prémio da Academia Francesa das Letras por um dos seus poemas. Publicou, em 1921, uma antologia poética intitulada Odes et Poésies Diverses que lhe valeu uma pensão do estado francês, concedida por Luís XVIII:

Um ano depois, publica o seu primeiro romance Han d’Islande. Casa-se com Adele, causando um sério desgosto ao irmão, o qual, anos mais tarde, enlouquece e é internado num hospital psiquiátrico. O casamento será tão conturbado quanto o dos pais, mas por razões diversas.

Em 1825, Victor Hugo recebe o título de Cavaleiro da Legião de Honra, com apenas vinte anos e, um ano mais tarde, passa a explicar, no prefácio do drama histórico Cromwell, os aspectos que o afastam do classicismo, dando a entender a necessidade de romper com as restrições do formalismo clássico e dedicar-se à plena exploração das múltiplas dimensões da natureza humana, defendendo a coexistência do sublime e do grotesco no drama moderno. Hugo é, assim, caracterizado como a força motriz da segunda e terceira fases do romantismo na Literatura e herdeiro das concepções de Chateaubriand.

A peça de teatro Marion de Lorme, a qual tem como protagonista uma cortesã francesa do século XVII, é alvo de censura, por ser considerada “demasiado liberal”, em 1829, tendo os censores interpretado a obra como uma crítica a Carlos X.
Já o drama Hernâni de 1830 pode ser olhada como precursora de Os Miseráveis uma vez que o protagonista que, tal como Jean Valjean, é um herói romântico em luta contra a sociedade. Trata-se de uma obra que se empenha em colocar em evidência as injustiças sociais. A mesma obra divide opiniões, agrada aos jovens e causa algum incómodo nas gerações mais velhas àquela data. No entanto, contribui largamente para a consagração de Hugo como Líder do Movimento Romântico na Literatura Francesa.

Notre-Dame de Paris é publicado em 1931 e passa a ser considerado o maior romance histórico do Autor. Aparte da trama sentimental, que envolve o corcunda Quasímodo e a deslumbrante cigana Esmeralda, o estilo é essencialmente realista, particularmente no tocante à descrição da Paris medieval, a qual se entrelaça num enredo melodramático com muitas peripécias e reviravoltas, pejadas de ironia.

Em 1932, publica mais uma obra sujeita a censura, Le Roi s’amuse,baseada na vida amorosa do Rei Francisco I de França, pelo que o mesmo trabalho é acusado de expor a figura do Rei ao ridículo.
Victor Hugo passará algum tempo no exílio, em Jersey, entre 1853-1855, o qual condena veementemente, por razões morais, na obraHistoire d’un crime. O desprezo por Napoleão III leva-o a alcunhá-lo de Napoléon Le Petit, em oposição a Napoleão Bonaparte a quem considerava “o grande”.
A morte da filha, Leopoldina, deixa-o perturbado, tentando buscar refúgio no misticismo.
Victor Hugo influenciou ideologicamente alguns dos grandes nomes da literatura mundial do século XIX e XX como Albert Camus, Charles Dickens, Fiodor Dostoievski e José Saramago.


Os Miseráveis ( O livro e as adaptações cinematográficas)


Victor Hugo começou a arquitectar a grande obra literária da sua vida cuja temática incidia na miséria e a injustiça social, no início da década de 1830, um romance que só viria a ser publicado em 1862 e do qual Les derniers jours d’un condamné foi apenas um esboço ou ensaio. O Autor estava plenamente consciente da qualidade literária da obra, a qual foi objecto de uma cuidada e concertada estratégia publicitária invulgar para a época, sendo a primeira parte do romance – Fantine – lançada simultaneamente em várias capitais europeias. A obra esgotou em poucos dias e teve um impacto considerável na sociedade francesa daquela época. O conteúdo de Os Miseráveis não gerou, no entanto, consenso, munindo-se alguns críticos e escritores conceituados da época de algumas acutilantes farpas com que o apuparam: Flaubert afirmou que o livro não era “nem verdadeiro nem genial” e Baudelaire apelidou a obra de “sem graça e inepta”. Os Miseráveis ganhou popularidade junto das massas fazendo com que os temas aí explorados, passassem a ser discutidos na Assembleia Geral de França, isto é no Parlamento.
A discussão de temas sociais e políticos aparece já diluída na obra seguinte. Les Travailleurs de la Mer foi bastante bem recebida pelo público, ainda cativado pela aura de Os Miseráveis. A mesma obra foi alvo de inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão.

Em L’Homme qui rit, Hugo faz um retrato crítico da aristocracia, mas o livro não é bem recebido. O Autor pretende, cada vez mais, distanciar a própria obra da dos seus contemporâneos como Flaubert e Zola, de tendência realista e naturalista que ganhavam terreno junto a público. Quatre-vingt treize (1893) foi publicada em 1874 e aborda um tema especialmente delicado que o autor até então se esforçara por evitar: o Reinado do Terror, dentro da Revolução Francesa. Trata-se de uma das grandes obras de Victor Hugo Autor ao nível das grandes publicações anteriores.

O Enredo de” Os Miseráveis”

Os Miseráveis foi publicado pela primeira vez a 3 de Abrilde 1862, em Leipzig, Bruxelas, Budapeste, Roterdão, Milão, Varsóvia, RIO de Janeiro e Paris em, simultâneo.
A obra estrutura-se em, cinco volumes. Cada qual tem uma personagem que se destaca e divide o protagonismo com Jean Valjean que está presente em todas as fases da trama, atravessando toda a saga do primeiro ao último volume.
A trama desenvolve-se no período de amplitude temporal compreendido entre duas grandes batalhas ou conflitos que marcaram a História de França no século XIX: a Batalha de Waterloo – na qual o exército de Napoleão saiu vergonhosamente derrotado, após enfrentar as tropas do general Nelson, à frente do Exército britânico, o qual apoiava a causa realista daquele país e via o Império, encabeçado por Bonaparte, uma séria ameaça à soberania dos restantes estados Europeus – e os motins de Junho de 1932, opondo a facção simpatizante das ideias bonapartistas ao governo de Luís XVIII.
A história gira à volta de um homem do campo, um trabalhador agrícola que dedica a vida a podar árvores e vinhas, trabalhando duramente para ajudar a irmã a sustentar uma família numerosa de seis filhos. Um dia, o desespero causado pela fome, impele-o a assaltar uma padaria e roubar um pão. A consequência de ser apanhado em flagrante vale-lhe uma condenação às galés por cinco anos, pena que é agravada e multiplicada pelas várias tentativas de fuga, fazendo-o passar quase uma vintena de anos no degredo.
Aquando do regresso, Jean Valjean traz consigo o estigma do condenado às galés, facto que o relega para a condição de excluído social: ninguém lhe dá trabalho ou guarida para passar a noite, mesmo pagando. Ao aspecto maltratado, junta-se o passaporte amarelo, a insígnia do criminoso que não merece sequer um voto de confiança para pernoitar num lugar abrigado.
No entanto, Jean Valjean parece ter o encontro marcado com o destino, incarnado na figura do Bispo Myriel: após ser-lhe indicada a morada do clérigo, como o lugar onde deverá tentar pedir dormida, o abade decide resgatar aquele homem de ar desesperado da condição de excluído. Primeiro, concede-lhe um voto de confiança – que ele trai – e depois, ao conceder-lhe uma segunda oportunidade, fornece-lhe os meios para iniciar uma nova etapa na vida.
A história de Os Miseráveis parece ser o inverso da de Fausto de Göethe na qual o protagonista, ao invés de vender a alma ao Diabo, vende a alma a Deus que fica com ela como garantia de que este irá mudar de vida: o Bispo Myriel, homem incorruptível, de hábitos frugais, pouco amante de luxos e dono de uma infinita bondade, exige a alma de Jean Valjean em troca dos meios para cumprir a missão de praticar o Bem durante o resto da vida: uns castiçais e um faqueiro de prata.
Myriel dá-lhe os meios materiais para o “salvar”, chegando até a mentir às autoridades para tal mas obriga-o a contrair uma dívida moral da qual Myriel será credor nesta vida e mesmo após a própria morte. Uma dívida que Valjean terá de amortizar durante o resto dos seus dias. Valjean terá, pois, de usar a prata para se tornar um homem íntegro. Myriel só lha concede por saber tratar-se de um homem que não é intrinsecamente mau, mas corrompido pela sociedade e falta de oportunidades. Este ainda tem o impulso de roubar para sobreviver – patente no incidente com a moeda do pequeno Gervais – afinal não é fácil mudar hábitos enraizados ao longo de anos de convivência com criminosos e transformar o ódio ou rancor à sociedade – mediante um castigo desproporcional à falta cometida – em compaixão.
Jean Valjean muda-se para outra cidade, adopta o nome de Pére Madeleine e torna-se num próspero empresário, fabricante de acessórios de azeviche. É, agora, um homem respeitado e admirado. Tornar-se-á, então, no Maire de Montreil-sur-mer. No entanto, a inveja espreita, insidiosa…
Madeleine era, no tempo das galés, conhecido pela sua força prodigiosa sendo apelidado de “o Guincho” ou guindaste. Num dia em que a mesma força se torna necessária para salvar um aldeão que fica entalado debaixo das rodas de um carro de bois, Javert, o chefe da polícia daquela localidade reconhece-o. A nova máscara social com que decide recomeçar a vida ameaça desfazer-se.

Este primeiro volume de Os Miseráveis intitula-se de Fantine, a primeira grande figura feminina com a qual interage o protagonista.
Fantine é uma figura trágica, directamente emanada do romantismo. Mulher socialmente vulnerável, pelas suas origens, filha bastarda, de beleza fulgurante e delicada, tem, no entanto, o poder de atrair o infortúnio e, ao mesmo tempo, de quebrar a aparente inflexibilidade do “Pére Madeleine”.
A estrutura deste primeiro volume da obra é desenvolvida de forma assaz simétrica e inversamente proporcional: à ascensão social de Jean Valjean opõe-se a queda irreversível de Fantine. O volume termina com o julgamento de Madeleine, após a denúncia de Javert e um final trágico para Fantine.
As temáticas para as quais o Autor chama a atenção eneste prieiro volume prendem-se sobretudo com a “ingenuidade” das leis e as lacunas no Direito que afastam a sua aplicação do ideal de justiça, com a desigualdade de oportunidades e, particularmente, com a vulnerabilidade social e sujeição a maus tratos a que são sujeitas as mulheres, sobretudo nas classes sociais mais desfavorecidas, incarnadas na bela e infeliz Fantine.

O segundo volume é dedicado a Cosette, filha de Fantine, cuja custódia é entregue por esta a Jean Valjean. Cosette representa para o ex-condenado o amor absoluto e desinteressado, o qual se alia a um forte desejo de protecção, despoletado quando a salvo dos maus tratos e sevícias dos Thénardier, um casal de patifes que se dedica à extorsão e em grande parte responsáveis pela morte de Fantine. Valjean salva-a não só dos maus tratos mas também da sorte que lhe estaria reservada quer pelas origens sociais quer pela beleza, herdada da mãe, beleza essa que se mantém durante muito tempo semi-oculta, devido à vida difícil a que é sujeita durante os primeiros anos de infância. A fragilidade social e o apreço normalmente concedido à beleza feminina fariam com que Cosette se transformasse numa criança de risco.


Os capítulos que, dentro deste volume são dedicados à batalha de Waterloo, servem não apenas para situar a acção num dado momento da História de França, mas também como documento, pela detalhada descrição das tácticas militares empregues na batalha e, ainda – e sobretudo – como fio condutor que não só explica em parte a personalidade de Thénardier, como a atitude de algumas personagens ligadas a Fantine e Cosette – o pai de Marius e o próprio Marius, protagonista do terceiro volume. A atitude de Mr. Thénardier durante a batalha serve para denunciar a farsa que representa para a comunidade ao fazer-se passar por homem recto, desmentindo a reputação de soldado diligente e cumpridor que Thénardier se encarrega de difundir. O mesmo Thénardier é o oposto de Jean Valjean, isto é, um patife até à medula, sem remissão possível. A mulher, Mme. Thénardier, parecer ser mais uma mulher dominada pela inveja e pelo ressentimento.


Cosette é o volume de Os Miseráveis que chama a atenção para o problema das crianças maltratadas, ao descrever com detalhe o comportamento, as atitudes a as marcas físicas, das crianças submetidas a maus-tratos físicos e psicológicos de forma constante e prolongada. Com o crescimento, a filha de Fantine tornar-se-á numa criança resiliente, graças à intervenção de Jean Valjean.


Os Thénardier comportam-se, ao longo de todo o romance, como autênticas hienas, capazes até de maltratar os próprios filhos. Na verdade, quando as coisas ainda correm bem, as duas filhas mais velhas, Eponine e Azelma, conhecem uma vida familiar calma, são amadas, bem alimentadas e vestidas. Mas os filhos mais novos não têm a mesma sorte e são votados, desde cedo, ao abandono. Mais tarde, quando as dificuldades aumentam, estes pais acabam por se desleixar mesmo em relação à duas filhas mais velhas e a obrigá-las a colaborar nos seus crimes. As crianças Thénardier sofrem, todas elas com os abusos dos pais. O Autor dá a entender que o futuro destessibblings poderia ser muito diferente, caso tivesse havido uma intervenção externa, como houve no caso de Cosette. Partilhando dos ideais de Jean-Jacques Rousseau, de que o homem nasce naturalmente bom e que é a sociedade que o corrompe, Victor Hugo mostra-se conforme ao pensamento do pai do Humanismo, ao sublinhar a mudança progressiva de atitude de Eponine e Gavroche, mediante e influência positiva de Marius, nos volumes seguintes.
Eponine surge, já no final do segundo volume e, depois no terceiro, precocemente envelhecida, apesar de ser ainda adolescente – a Eponine cabe-lhe um destino muito semelhante ao de Fantine: a queda é inexorável e irreversível. Aparece sub-nutrida, coberta de andrajos, a beleza evaporada e a instrução completamente negligenciada.


No terceiro volume, o principal interveniente é Marius, a personagem a quem, nesta terceira parte, é concedido o maior destaque, partilhando o protagonismo com Cosette e Jean Valjean.
A par das personagens heróicas, o Autor destaca neste capítulo a vida das crianças de rua e o incontáveis riscos que decorre o estilo de sobrevivência no fio da navalha, onde a morte espreita em cada esquina. Gavroche e Eponine serão protagonistas de um drama pungente, enquanto os irmãos mais novos desaparecem de vista sem deixar rasto.

No início no volume, Marius ainda procura os Thénardier pois está convencido dever-lhes a vida do pai, a quem Thénardier supostamente teria tentado socorrer em Waterloo. Este equívoco será responsável pelo adiamento da história e pelo facto de o casal de vilões continuar, ainda, durante bastante tempo, a assombrar a vida de Cosette e a de Jean Valjean.

Um dia, ao cruzar-se com Cosette no jardim de Luxemburgo, Marius apaixona-se irremediavelmente – o arrebatamento do amor à primeira vista, tão valorizado o Romantismo, com símbolo de rebelião às convenções sociais e à ordem estabelecida – e inicia-se a fase seguinte do romance.

Gavroche, apresenta-se, ainda neste volume, como o gaiato típico, isto é, como o esquivo e travesso garoto de rua, com as manhas de uma pequena raposa usadas para sobreviver, mas com um código de honra muito próprio. É generoso e compassivo, como demonstra a cena onde acolhe os irmãos mais novos, desconhecendo-lhes no entanto a identidade – as crianças tinham sido entregues a uma ama que os abandona por falta de pagamento –, mas acaba por perdê-los de vista. A forma comovente como os protege na adversidade, transidos pelo frio do álgido inverno parisiense e pela fome, lembra o pungente filme iraniano do século XXI As Tartarugas também voam, no qual uma jovem rapariguinha prestes a atingir o limiar da adolescência alimenta o irmão, sem braços.
Após uma emocionante cena de polícias, ladrões e tiroteios, os Thénardier são, finalmente, presos juntamente com alguns membros da quadrilha Patron-Minette, a qual semeava o terror pela cidade. Eponine e Gavroche saem ilesos. Sobretudo este último, que não participava dos crimes dos pais.


No volume IV, intitulado de O Idílio da Rue de Plumet e a epopeia na Ruae Saint-Denis, a acção é totalmente baseada nos acontecimentos que desencadearam os motins de Junho de 1832 e as barricadas da Rue de Saint-Denis, factos históricos que servem de cenário ao romance, enquadrando-o no contexto da Revolta de Paris de 1832.
Ainda ano livro III, deste volume IV - Intitulado A Casa da Rue Plumet - o Autor explica a forma como Valjean e Cosette deixaram o convento onde se refugiaram, fugidos de Javert e dos Thénardier, e se mudam para uma vivenda na Rue France, durante uma pequena analepse.
Voltando ao presente, Eponine encontra Marius, por quem está apaixonada e, para o cativar, faz-lhe saber onde vive Cosette.
Entretanto, os Thénardier ainda conseguem fugir da prisão e reconstituir a quadrilha. Planeiam invadir a casa de Jean Valjean, assaltá-la e extorquir o proprietário. Eponine, frustra-lhes os planos ao sabotar a missão, por amor de Marius, apesar de saber que este ama Cosette.

A paixão de Marius por Cosette vai desencadear, ainda, um drama familiar, devido às reticências de Mr. Gillenormand, avô de Marius, aristocrata conservador e anti-bonapartista. Marius é um romântico, logo é improvável que se comporte da mesma forma que o amante de Fantine – o típico marialva do Antigo Regime – sabendo, por outro lado, que a sua Cosette jamais se prestaria ao papel de concubina..


A morte do General Lamarque, que desempenhara um papel fulcral no Exército de Napoleão, é o rastilho de pólvora que despoleta a insurreição popular em Paris de 1932, dando origem a violentos conflitos, precisamente na altura em que o cortejo fúnebre pára na ponte de Austerlitz.
Gavroche junta-se a um grupo de revoltosos numa tipografia, encabeçado por Enjolras, Courfeyrac e Combefère. Javert, no entanto, infiltra-se no grupo, mas é denunciado por Gavroche. Ao mesmo grupo juntar-se-á também, mais tarde, Marius, na Taberna Grunthe, onde Javert é amarrado a um poste.
Eponine morre durante a barricada, ao tomar, um impulso, a resolução de salvar a vida de Marius. A verdadeira personalidade de Gavroche é revelada ao juntar-se ao grupo de Enjolras e a aprender o ofício de tipógrafo, recusando-se a enveredar pelo mundo do crime como os pais e tomando aqueles jovens como modelo de conduta...
A morte de Gavroche durante a barricada é um dos momentos mais angustiantes do romance, uma vez que, até ao último instante, o leitor é deixado em suspenso, na esperança que o “gaiato” consiga iludir a perseguição da Morte pelas ruas, do outro lado da barricada…


O volume V é dedicado ao desfecho da História de Jean Valjean e ao romance entre Cosette e Marius. Um acto heróico de Valjean faz lembrar vagamente uma cena de O conde de Monte Cristo deAlexandre Dumas. Trata-se de uma cena infernal, subterrânea, uma viagem pelos esgotos de Paris, que constitui uma metáfora extremamente bem conseguida através da descrição vívida de uma realidade física, mas a simbolizar a obscenidade da miséria e, simultaneamente, da corrupção da sociedade. A descrição da imensa cloaca subterrânea parisiense é impressionante, ocupando quase um capítulo inteiro. O autor faz, aqui, uma analogia, cujo objectivo consiste numa chamada de atenção para o acelerado desenvolvimento económico, já no século XIX, parecia seguir uma linha que, além de por em causa a sobrevivência futura da humanidade pelo impressionante impacto ambiental que dele decorre, escondia, debaixo da capa da ostentação, a imensa miséria social germinadora de conflitos, tal como o lixo que desemboca no esgoto. Este “lixo” (que não é apenas desperdício) pode, no entender do Autor ser reutilizável, deixando assim de constituir uma ameaça. Tanto no que respeita ao lixo físico, quanto do capital humano subvalorizado, desaproveitado e excluído socialmente, que ameaça tornar-se uma bomba relógio para a paz social, quanto da mesma forma que a porcaria dos esgotos ameaça transbordar da superfície e invadir as ruas da cidade.
A faceta magnânima de Valjean está patente no último encontro com Javert, por ele salvo de morrer às mãos dos revoltosos, numa batalha que se revelou tão trágica quanto a das Termópilas. Neste último encontro entre os dois antqagonistas, dá-se um emocionante debate entre Ética e Justiça e o eterno conflito entre “a letra da lei” e o “espírito da lei”, pretendendo este último aproximar-se mais do ideal de Justiça, em oposição à mera aplicação formal dos resultados de actos legistativos.


O final do romance é emocionante e a tensão, esticada até ao limite. Esta é dissipada com a eliminação do foco de interesse dos vilões, os quais desaparecem para outras paragens, em busca de novas presas. Um final digno de uma obra que marca o período áureo do Romantismo na Literatura, onde a emoção ocupa o lugar privilegiado. As personagens são heróicas e exibem comportamentos sublimes, veiculados a essa mesma heroicidade, desde Javert a Valjean, passando por Marius e Cosette.


As personagens de Victor Hugo em “Os Miseráveis”


O romance é composto por um vasto leque de personagens. Muitas delas contempladas apenas com uma breve aparição num romance que é, na verdade, uma saga em cinco volumes, ao passo que outras são ubíquas, aparecendo se não em todos, pelo menos na maior parte, dos mesmos cinco volumes de peripécias.
No primeiro caso, temos uma boa parte das personagens que aparecem somente no primeiro volume – secundárias, por fazerem parte de uma narrativa que é, também ela, secundária: o passado de Valjean e as origens de Cosette. São elas, a irmã e os sobrinhos de Valjean, que desaparecem sem deixar rasto nos volumes seguintes, o abade Myriel, determinante na conduta futura de Valjean, o pequeno Gervais, que serve para demonstrar a fraqueza de espírito e as feridas no carácter do protagonista e, claro, Fantine, a qual, apesar de figurar apenas no primeiro volume, deixará marcas indeléveis que irão condicionar o percurso das restantes personagens como Valjean, Cosette e os Thénardier. Fantine aparece, primeiro, como uma figura idealizada, pela beleza e ingenuidade e, depois, santificada pelo sofrimento e capacidade de abnegação. Aliás, quase todas as personagens femininas em Victor Hugo são planas, resultando de idealizações de vários tipos sociais femininos, a que Cosette e Eponine ou Madame Thénardier não fogem à regra.


Temos, ainda, as personagens principais que estão presentes em todas as fases seguintes: os antagonistas Valjean e Javert (que também figuram no primeiro volume), os Thénardier, Cosette (surge a partir do segundo volume) e Marius (dá entrada no terceiro volume).


Valjean é, pelo contrário, uma personagem que vai ser objecto de modelagem, cuja personalidade vai sofrendo alterações, fruto das circunstâncias e da aprendizagem pelo sofrimento e, sobretudo, pelo compromisso a que foi votado pelo Bispo Myriel e pelo voto de confiança dado pelo mesmo, que o faz acreditar outra vez na Humanidade. Valjean sofrerá todo um processo de transformação que o leva a passar de criminoso a filantropo.


A transformação de Cosette não se dá tanto ao nível de personalidade, mas ao nível de autoconfiança e físico, devido aos condicionamentos a que foi sujeita nos primeiros anos de vida que se reflectem no aspecto exterior, decorrente ausência de afecto, carências alimentares e maus tratos. Trata-se mais uma vez, de uma personagem feminina que é idealizada pelo Autor, a incarnar a figura da heroína romântica, ou uma “princesa” de origem plebeia. Cosette é o patinho feio que se transforma em cisne, fruto das condições ambientais.


Javert começa por ser um polícia que peca por excesso de zelo, no tocante ao cumprimento da lei, uma atitude que mudará ligeiramente ao pôr em causa as próprias acções, no final do último volume.


Marius é o típico herói romântico, neste caso um jovem aristocrata simpatizante das ideias liberais que se desentende com o avô, empedernidamente monárquico e conservador. Estuda direito e, mercê das afinidades ideológicas com o pai, juntar-se-á à facção dos estudantes revolucionários liderada por Enjolras.


O casal Thénardier incarna a alma corrupta do romance, da venalidade. São peritos em extorsão, assaltos, pilhagem liderando uma perigosa quadrilha que aterroriza as ruas parisienses.


Eponine, filha mais velha dos Thénardier, é uma jovem que é, inicialmente, treinada para a vida no crime pelos próprios pais, mas as suas convicçõe assumem uma natureza deferente depois de conhecer e passar a admirar Marius, tomando-o como modelo de conduta.


Gavroche, o terceiro filho dos Thénardier, é uma personagem coadjuvante do grupo de revoltosos. Consegue captar a empatia do leitor, pela forma empenhada como protege os irmãos.
Enjolras tem a personalidade de um líder, defensor dos ideais da revolução Francesa, será outra figura modelar para Gavroche.
As freiras que acolhem Cosette e Valjean, enquanto este foge da perseguição de Javert são também, fortes aliadas dos protagonistas. O Autor dedica, também, um capítulo inteiro a descrever os efeitos psicológicos e emocionais nas religiosas, decorrentes do extremo isolamento a que são votadas e cujos hábitos austeros levam muitas delas à loucura.


Ainda na primeira parte, a irmã Simplice, que cuida de Fantine, é uma das personagens mais comoventes pela atitude assumida ao passar por cima das próprias convicções (nunca mentir), em nome da Justiça e da Compaixão, para ela valores tidos como Absolutos. Trata-se de uma personagem que ao contrário de Javert, age de forma pós-convencional.


Mr. Maboeuf é outra personagem que, na recta final do romance, no auge dos acontecimentos explosivos, consegue despertar grande comoção nos leitores. Trata-se de um tesoureiro que empobrece até ao extremo e de forma inexorável, chegando ao cúmulo de vender os livros e todas as plantas que ama. Junta-se aos seus alunos e à insurreição, durante a qual acabará por falecer.


Marius é o único que contradiz um pouco o carácter heróico destas personagens. Sendo um tipo social construído a partir da ideia do romantismo, o jovem galã romântico revela, no entanto, uma fragilidade: um espírito condescendente que o torna particularmente vulnerável à acção dos Thénardier, colocando os outros protagonistas na mira da quadrilha de patifes.


O estilo literário de Victor Hugo


Algumas descrições, como a batalha de Waterloo ou a imensa rede de esgotos de Paris ou, mesmo, os motins de 1832/1833, realizados com o objectivo de restaurar a República e derrubar a casa de Orleães, são todas elas, dotadas de grande realismo, devido à profusão dos detalhes, que sugerem terem sido as cenas senão vivenciadas, pelo menos descritas por testemunhas oculares.


A linguagem é cuidada e elaborada, o Autor jamais utiliza a palavra calão, substituindo a palavra “merda” por “porcaria” ou “excremento” e “prostituta” pela pudica expressão “mulher pública”, por exemplo. Victor Hugo, no tocante às preocupações ambientais demonstra claramente ser um homem à frente do seu tempo, ao denunciar a (ir)responsabilidade, tanto do Estado como dos particulares, na poluição dos rios, causada pelo despejo de dejectos humanos, os quais, no seu entender, deveriam ser canalizados para a produção de fertilizantes, poupando fortunas na compra de fertilizante de origem avícola e aumentando a produção no sector primário da Economia.


O Homem, o Humanista


Sendo um reformista, Hugo nunca adoptou, no entanto, o discurso marxista da luta de classes, por acreditar que o Homem deveria usufruir do produto do próprio trabalho. Não deixou contudo de reforçar a ideia da responsabilidade social que acompanha o enriquecimento. A ideia está patente na obra, sobretudo na primeira parte, numa altura em que Pére Madeleine se empenha em prestar auxílio às funcionárias em dificuldades, como mostra ser o caso de Fantine. Victor Hugo foi, também, um forte opositor do uso da violência, sempre que esta colocasse em risco um governo democrático. Contudo, justificava-a quando utilizada contra aquilo a que chamava de “um poder ilegítimo”. Victor Hugo manterá a mesma posição até à altura da guerra franco-prussiana, a qual via como uma guerra de capricho e não de liberdade”. Sem esquecer que foi uma das grandes figuras da Literatura Universal que felicitou Portugal por, em 1876, ter aprovado a lei da abolição da pena de morte, sendo Portugal o primeiro país Europeu a fazê-lo.

Por altura do seu falecimento, em 1870, estima-se que mais de um milhão de pessoas tenha comparecido ao enterro para lhe prestar homenagem. Dizem, ainda, as más-línguas que, à data, as prostitutas de Paris ficaram de luto. Um justo agradecimento a um homem que defendeu os direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades de género no acesso à educação e ao trabalho.

Cláudia de Sousa Dias
25.04.2011 (reformulado a 25.01-2012)


Livro marcante de uma época
Em muito bom estado. 
Capas e Miolo impecáveis
Sobrecapa de película plástica típica das edições da época do Círculo de Leitores em razoável estado de conservação, com alguns rasgos.

Preço 50€  

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sexta-feira, 1 de março de 2013

Casos de direito galáctico. O mundo inquietante de Josela ( Fragmentos) Mário-Henrique Leiria, 1ª edição 1975

Casos de direito galáctico.O mundo inquietante de Josela (fragmentos)
Mário-Henrique Leiria
Editorial República
Coleção Letras
1ª edição
1975
Ilustrações de Cruzeiro Seixas











 Ilustração de Cruzeiro Seixas para a capa do livro «Casos de Direito Galático».

CASO 37 007 339 – 3º VIII
Sector de Rigel
(Crostol contra Pul-Tra)
Pul-Tra, rastejador polipoide de Algol-7, caixeiro viajante de máquinas de solidão, ao desembarcar no porto estelar de Troikalan em actividade profissional, foi abordado no bar do dito astroporto por Crostol, indivíduo insecto-voador, indígena do planeta, que delicadamente o convidou a tomar um recipiente de «Grum-Kvas VOP» como símbolo de boas vindas.
Pul-Tra, com dois tentáculos e extremo cuidado, pegou no insecto indígena e, em gesto ritual, arrancou-lhe cerimoniosamente os órgãos visuais.
Dado este acontecimento, foi detido para averiguações por um membro do Departamento Gravito-Sentencioso que gravitava de serviço no astroporto.
A queixa foi imediatamente apresentada por Brastol, membro do grupo reprodutivo de Crostol (5º sexo), baseada na alegação de destruição desnecessária praticada na pessoa de um indivíduo do citado grupo.
Processando-se em seguida a análise de Conjuntos, Circunstâncias e Condições, alegou a defesa que Pul-Tra, como todos os naturais de Algol-7, era de condição pacífica, sempre pronto a retribuir qualquer delicadeza recebida.
Dado que, por contingência psico-somática, todos os naturais dessa região prezam e consideram como o maior bem a solidão e a contemplação interna (zan-zan-dag), Pul-Tra, ele mesmo vendedor das mais requintadas máquinas de solidão produzidas pela sua raça, devolvera no melhor estilo a amabilidade de Crostol, libertando-o dos órgãos visuais e, assim, da presença de imagens externas inoportunas.
A acusação (Ministério Público – Comarca de Troikalan) no entanto, não aceitou esta argumentação, considerando que, como é sabido, os órgãos visuais dos indígenas de Troikalan são o elemento sustentador do equilíbrio sexual (5º sexo) dos grupos reprodutivos e a destruição desnecessária dos mesmos pode pôr em grave risco a imprescindível polinização das fecundações de grupo. A ignorância deste facto, disse, não pode de forma alguma servir como argumento para a absolvição do rastejador polipoide Pul-Tra, de Algol-7. Como fez notar, há outras maneiras de ser agradecido além de «andar por aí a vazar olhos» (sic).
A sentença (Sector de Rigel – Comarca de Troikalan) foi benigna, considerando como circunstância atenuante a boa-fé com que o acto fora praticado, embora a acusação tivesse protestado energicamente.
Pul-Tra foi sentenciado a suportar luz nos olhos directa e ininterruptamente durante 37 rotações algolianas (factor + 7), com pena suspensa por 3 ciclos de Rigel. Ao grupo reprodutivo de Crostol foram concedidos dois binóculos reprodutores extra e, como indemnização simbólica, a posse temporária, durante a pena suspensa, do apêndice caudo-solitário de Pul-Tra.
Pergunta-se aos estudantes atentos: foi a sentença coerente com os trâmites planetários em vigor (Sector de Rigel) ou houve abuso de poder?
(Casos de Direito Galático)
Torah
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente. Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro. No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.


Sobre Mário-Henrique Leiria 
(créditos de http://www.vidaslusofonas.pt/index.htm ):


1923: A 2 de Janeiro Mário-Henrique Leiria nasce em Lisboa. - 1942: É expulso, em Lisboa, da Escola Superior de Belas Artes, talvez por motivos políticos. - 1949/51: Participa nas movimentações surrealistas portuguesas, entre as quais a obra colectiva Afixação Proibida. - 1952/57: Vários empregos: Marinha Mercante, caixeiro viajante, operário metalúrgico, servente de pedreiro, etc... Viaja pela Europa ocidental e central, também pelo norte de África. - 1958: Visita a Inglaterra. - 1959: Casa, em Lisboa, com uma rapariga alemã; dois anos depois o casal irá separar-se. - 1961: “Operação Papagaio” e MHL é detido pela PIDE. Parte para o Brasil. - 1970: Regressa a  Portugal. - 1973: Publica Contos do Gin-Tonic. - 1974: Publica Novos Contos do Gin. Revolução do 25 de Abril, em Portugal. - 1975: MHL é o chefe de Redacção de O COISO, suplemento semanal do diário A REPÚBLICA. Publica Imagem Devolvida, Conto de Natal para Crianças e Casos de Direito Galáctico seguido de O Mundo Inquietante de Josela (fragmentos). - 1976: Adere ao PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) - 1979: Publica Lisboa ao voo do pássaro. - 1980: A 9 de Janeiro morre em Cascais (degenerescência óssea).

SURREALISMO E CARBONÁRIA


 
Ó Mário-Henrique: conhecemo-nos em Lisboa, no Café Chiado, em 1951. Tinha eu uns 20 anos e tu eras mais crescidinho, terias uns 28. Lembras-te? Se não te lembras, lembro-me eu, tu sempre agitadinho e a provocar tudo e todos, militância surrealista, as coisas arrancadas do seu lugar habitual, humor negro, a tua rebeldia a oscilar entre as artes plásticas, a prosa e a poesia.
No interior de uma das casas de banho do Café há, na porta, um poema escrito com tinta ácida, impossível de apagar:
Aqui
cagou
Pio XI,
Rei dos Ciganos.
Negas ser o autor mas desmanchas-te a rir e mais me convenço que o poema é teu.
O que tu adoras é choques em cadeia, dentro ou fora das casas de banho... Também te dá muito gozo atropelar os adeptos do “neo-realismo” (nome que, por causa da PIDE e da Censura, em Portugal se dá ao “realismo socialista” apregoado pelo camarada Zdanov). Aproximas-te da mesa do Manuel Ribeiro Pavia e começas a espicaçá-lo por causa das ceifeiras rechonchudas que não pára de esboçar, desenhar e colorir. O Pavia não te suporta, é trombudo por natureza, leva tudo a sério. Guarda os desenhos, fecha a pasta, levanta-se, vira costas, vai-se embora. Não desistes e começas logo a mordiscar o José Dias Coelho, aquele escultor, teu antigo condiscípulo na Escola de Belas Artes, aquele apóstolo comunista que a PIDE irá matar a tiro numa rua do bairro de Alcântara. Mas não consegues varar as suas naturais defesas, ele desmancha-se a rir com as tuas investidas e acaba por te dar um grande abraço. Saudade tens, saudade temos da fraterna inteireza do Zé Dias...
Andas sempre à porrada. Não só com os neo-realistas mas também com os surrealistas, os outros do teu grupo. Não vos entendo, é a briga do Césariny com o António Pedro, e depois tu para um lado e o ALEXANDRE O’NEILL para outro enquanto na primeira sala do Café, sentado a uma mesa, o poeta António Maria Lisboa vai morrendo aos poucos, tuberculose. Apesar de vocês terem feito obras colectivas, como as colagens da Afixação Proibida, os vossos burrinhos estão sempre a puxar cada qual para o seu lado. Porrada, é só porrada... Até que um dia me dizes e passo a entender-te melhor:
- O meu avô é que era um gajo porreiro e muito giro. Pertencia à Carbonária. De segunda a sexta-feira trabalhava mas nos fins de semana fazia a Revolução. Ainda tenho lá em casa o bacamarte que ele usava contra a Monarquia...
Quero ver esse tal de bacamarte e tu convidas-me a ir a tua casa, uma vivenda em Carcavelos, a dois passos de Lisboa, à beira-mar, logo depois da foz do Tejo.
- Mas num domingo à noite, está a ouvir?
- Porquê domingo à noite?
- Tu vais ver...
E vejo. A vivenda onde moras, que foi dos teus pais, que é da tua mãe, fica próximo da estação dos Caminhos de Ferro, mesmo ao lado do cinema. À meia-noite subimos à torrinha e quando os espectadores começam a sair do cinema para a rua, tu empunhas o bacamarte do teu avô e começas aos tiros. Para o ar, mas aos tiros. A malta desata toda a fugir e tu a rir. E eu também, obviamente...
Só agora é que estou realmente a perceber-te: nas horas mais insólitas o teu gene da Carbonária resolve pôr os corninhos ao sol. Até de noite...

"OPERAÇÃO PAPAGAIO"
Mário-Henrique Leiria e mais uns tantos são detidos pela PIDE por causa de uma conspiração “surrealista” contra o Governo. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
 
Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a luva, consigo dar o salto para o Brasil. Nas vésperas ainda tento dar-te um abraço de despedida. Não consigo, estás a viajar pela Europa, irás também ao norte de África, prémio que te concedeste depois de teres trabalhado quer na Marinha Mercante, quer como caixeiro viajante, operário metalúrgico, servente de pedreiro, e não sei que mais...
Já no Brasil saberei que em 1958 arregaçaste as mangas durante a campanha do Humberto Delgado à Presidência da República. E que em 1961 também estavas disposto a arregaçá-las quando da falhada revolta de Beja. Saberei ainda que te apaixonastes pela Dietlinde Hartel, a Fipsy, uma alemã, linda mulher. Com ela casaste, em Lisboa, em 1959.
Contar-me-ão também o que a maioria dos frequentadores do Café A Brasileira em 1961 já sabe, regabofe colectivo: tu, e um grupo de malucos, entre os quais Virgílio Martinho e o poeta António José Forte, estão a programar, de mesa para mesa e em voz alta, a revolucionária “Operação Papagaio”. Numa das próximas noites vocês propõem-se bater à porta do Rádio Clube Português, que fica na Parede, povoação mesmo ao lado de Carcavelos. Lá dentro há apenas um contínuo enquanto roda a bobine com o programa nocturno “Companheiros da Alegria”. A porta é aberta. Vocês apontam um revólver, imobilizam, amarram e metem o contínuo num cacifo que depois fecham por fora, a cadeado. Entram no estúdio e trocam a bobine por uma outra que trazem convosco. Esta contem marchas militares, também o Hino Nacional tocado frequentemente e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Termina convidando a população a deslocar-se á Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos.
Enquanto gira a nova bobine vocês retiram-se do Rádio Clube Português. Ficarão, pelas esquinas, a aguardar a reacção dos ouvintes que, esperam, seja de entusiasmo...
Quem não aguarda é a PIDE, que vos prende mas fora d’A Brasileira, para não dar nas vistas. Durante o interrogatório os agentes, volta e meia, correm para o corredor a desrolhar as gargalhadas. Vocês ficam detidos uns quatro ou cinco dias, talvez uma semana. Depois levam uns safanões e são postos na rua. O espaço já é curto para arrecadar tantos subversivos, quanto mais uns brincalhões inofensivos...

BRASIL

Mário-Henrique Leiria localiza a sua alemã no Recife, mas não a incomoda. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  
Ainda em 1961 a Fipsy fica de lotação esgotada com os teus desatinos e passa-te as palhetas, regressa à Alemanha. Depois, atrás de uma nova paixão, pira-se para o Brasil. Inconformado, vais à sua procura. O curioso é que nas voltas e contravoltas legais do divórcio pedido pela alemãzinha, acabarás por te apaixonar por Isabel Alves da Silva, a advogada portuguesa da tua mulher, ou ex-mulher... A Isabel não resiste ao romance. Mas tu aqui e ela acolá, às vezes o Atlântico pelo meio, acaba a Isabel por se casar com um irlandês. O que não impede que vocês, durante uns 14 anos, troquem cartas de amor, muitas.  Dirás tu: “O amor assim é mais barato...”
Em Abril de 1962 estou eu em São Paulo, sentado numa esplanada junto á Biblioteca Municipal, a beberricar uma cerveja. Levanto os olhos e vejo-te a passar, muito apressadinho.
- Mário, ó Mário-Henrique, ó grande sacana!
O grande abraço. Contas-me das tuas traduções de ficção científica para a colecção Argonauta. Sempre a conversar e a recordar os tempos idos, cruzamos a Itapetininga e descemos a Avenida de São João até ao Vale do Anhangabaú. Levo-te para minha casa. Apresento-te a minha mulher. Ela improvisa um jantar para o inesperado convidado. Acabas por felicitá-la pelo excelente caldo Knorr que, num instante, preparara. Gargalhadas e assim irrompe amizade bem-humorada...
Eu e a minha mulher temos três filhos com 7, 5 e 3 anos. Transformas os teus joelhos em cavalinhos e, enquanto os miúdos cavalgam, os teus dedos não se cansam de encharcá-los com cócegas desde o pescoço até aos pés...
Dois anos depois desapareces, perco a tua pista. Porém, por portas e travessas, saberei que localizaste a Fipsy em Recife. Mas não te aproximas, não a perturbas, ficas apenas a mirá-la, de longe, de muito longe...
Por essa época os problemas ósseos começam a atormentar-te. “Fiquei com um joelho (o direito) e um pé (o esquerdo) totalmente desarranjados, coisa que de vez em quando não me permite dar um passo e me chateia incrivelmente com dores”, assim te queixas, em carta de Dezembro de 64, à advogada Isabel, tua paixão fora de esquadria.
Em 74 dir-me-ás que andaste pelo Brasil a preparar stands para exposições, a encenar peças, a dirigir uma editora. Acredito que tudo isso tenha realmente acontecido. Mas quando depois me dizes que também andaste na luta armada contra a ditadura militar brasileira e contra outras ditaduras sul-americanas, tremo todo... Acho que voltaste às colagens surrealistas, “o que gostarias de ter feito” pespegado a cuspo sobre “aquilo que realmente fizeste”. Ai Papagaio Papagaio, ai Carbonária...

GIN-TONIC

CONTOS DO GIN-TONIC; a capa também é de Mário-Henrique Leiria


































NOVOS CONTOS DO GIN; a capa também é de Mário-Henrique Leiria.
  Sei que voltaste a Portugal em 1970. Reencontramo-nos em Lisboa em 74, depois do 25 de Abril. Tu empenado porque, só para te chatear, a tua estrutura óssea começa a desabar...
Eu bem sabia que em 73 lançaras os Contos do Gin-Tonic e nos princípios de 74 os Novos Contos do Gin. Mas só depois da Revolução dos Cravos é que a tua prosa pega como fogo em palheiro, sucessivas edições de um e outro livro. Como é possível a surrealidade converter-se de repente em best seller? Tenho um exemplo à mão que talvez explique o fenómeno: durante a maré-cheia de Abril os meus três filhos navegam da adolescência para a juventude. E é a ti, ó Mário-Henrique, é justamente a ti que eles escolhem para figura emblemática do vendaval. Os teus contos e os novos contos do Gin-Tonic, por causa da irreverência e rebeldia, são para eles apetitosas cartas de marear. Está explicado? Faço-me entender?
Já tinhas dado à sola desta vida quando o actor Mário Viegas, no teatro e na tv, começou a interpretar os teus Contos do Gin-Tonic. Nós de olhos fixos ora no palco, ora na tela, pontaria, garra e graça, ver e ouvir, ao mesmo tempo fruir dois Mários, o Leiria a escrever, o Viegas a dizer. Pena que não tivesses assistido aos espectáculos, bem sentimos a tua falta. Em 96 o Mário Viegas passou-se para o Além, também ele. Acho que foi à tua procura.
Agora, para recordar os velhos tempos, vou beber, de enfiada, nove dos teus copos de Gin-Tonic. Aí vou eu, aí vens tu:
 
TORAH
 
Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.
Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.
No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.
 
SEPARATA GRATUITA
 
O QUE ACONTECERIA
SE O ARCEBISPO DE BEJA
FOSSE AO PORTO
E DISSESSE QUE ERA NAPOLEÃO
 
Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.
Então o arcebispo dizia:
- Sou a Josefa de Óbidos.
Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso, davam-lhe trouxas d’ovos.
Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.
 
CARREIRISMO
 
Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofer fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
 
ÚLTIMA TENTAÇÃO
 
Então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustração.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
 
CONTABILIDADE FINAL
 
Parece mentira, mas ainda não recebi os rublos moscovitas. E esta, ein! Só tenho coisas que me ralem.
 
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

 
EXAGEROS
 
O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:
- Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento.
Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.
 
CASAMENTO
 
“Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.
 
HISTÓRIA EXEMPLAR
 
Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.

O COISO


Mário-Henrique Leiria é o chefe de redacção de O COISO, suplemento do diário A REPÚBLICA. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
 
Com Rui Lemus, Carlos Barradas, Couto e Santos e uns tantos outros, congeminas e a 7 de Março de 1975 és o chefe de redacção de O COISO, novo suplemento semanal do diário A REPÚBLICA. Provocação e humor negro a acelerar nas curvas, entrevistas apócrifas com Spínola, Kissinger, Hitler, Pinochet, Salazar, Marcelo Caetano, etc. e  fotomontagens a ilustrá-las; por exemplo, Kissinger a dançar empunhando uma foice e um martelo; ou o Spínola convertido em musculoso “cabo de mar” na praia de Copacabana... Mas a irreverência incomoda muitos dos jornalistas teus colegas. Nem sequer os comunistas a aparam lá muito bem, porque estás sempre a gozar com tudo e com todos, até com os chapéus, os gorros, os bonés, os barretes e as carapuças do camarada Brejnev... Na Redacção, por entre gargalhadas, quem frontalmente te apoia é o Fernando Assis Pacheco, também o Álvaro Belo Marques e poucos mais. Um dia preparas-te para publicar na primeira página de O COISO uma violenta caricatura não só à boina, mas também à cabeça do Raul Rego, o director d’A REPÚBLICA. Caricatura congelada pela direcção do jornal e eis a gota que faz transbordar a hostilidade entre o radicalismo m-l dos operários gráficos e o socialismo bem comportado da administração e da maioria dos redactores. Extremam-se posições. Na rua, frente ao jornal, enfrentam-se piquetes ora aplaudidos, ora vaiados pelo público que, de hora a hora, vai mudando conforme as mobilizações partidárias. A REPÚBLICA acaba por ser suspensa, fechada mesmo em 19 de Maio de 1975. Também O COISO, está-se a ver. Do suplemento lançaste 11 números. O último foi em 16 de Maio de 1975.
A fome começa a rondar-te porque os direitos autorais dos teus Contos e Novos Contos do Gin chegam sempre tarde e a más horas ao teu bolso.
VODKA & CIA. LDA.
CASOS DE DIREITO GALÁTICO, de Mário-Henrique Leiria; capa e ilustrações de Cruzeiro Seixas.
 
Apesar de cada vez mais empenado, ainda vais escrevendo e publicando:   Imagem Devolvida, Conto de Natal para Crianças, Casos de Direito Galáctico (de tradutor passas a autor de ficção científica) seguido de O Mundo Inquietante de Josela (fragmentos), Lisboa ao voo do pássaro.
Para te ajudar a ultrapassar as dificuldades financeiras, uma jornalista reúne uns tantos amigos para, em conjunto, te comprarem mantimentos. Quando eles batem à tua porta, atiras as provisões pela escada abaixo e tratas de insultá-los. Não aceitas esmolas, de ninguém!
Sim, aquela escada da mesma e velha vivenda em Carcavelos. Ali moras agora com a tua mãe e uma tia, duas velhotas que já rondam os 90 anos. Também com o Vodka, um cão-linguiça todo preto e encorpado, em cujo pescoço de vez em quando armas um laçarote encarnado, pois os canitos também têm direito à Revolução. Porém o Vodka não está muito interessado em revoluções, prefere abocanhar e fugir com as tuas peúgas. Corres, ou tentas correr atrás dele. Levantas a bengala, erras o alvo e acertas a porrada mas é nos costados da tua tia. Lá vai a velha de charola para o hospital de Cascais. Por cima do cancro que a devora, tem agora uma costela partida... Um sarilho!
DERRADEIRO FAX
 
A 25 de Novembro de 1975 o General Eanes e o Grupo dos Nove dão um golpe militar para travar Abril montado no esquerdismo galopante. Ficas muito preocupado, temes o regresso ao tempo da Outra Senhora, ao fascismo. Tratas logo de aderir ao PRP - Partido Revolucionário do Proletariado - da Isabel do Carmo e do Carlos Antunes, que insistem na acção armada para defender a Revolução.
- Ó Mário-Henrique: mas se nem uma bengala tu consegues segurar como deve de ser, quanto mais uma espingarda ou metralhadora...
Que te importa! O que é preciso é agitar a ideia da acção armada, ai Carbonária, Carbonária...
Muitas vezes vou bater à tua porta a convidar-te a dar uma volta de carro. Aceitas sempre. De Carcavelos vamos à praia do Guincho e depois subimos à Serra de Sintra. Gostas muito de ir até ao Cabo da Roca. Será por causa da paisagem agreste, ou por ser ali a ponta mais ocidental da Europa? Sabe-se lá o que se passa pelos teus miolos...
Em Janeiro de 1980 és internado no hospital de Cascais. Um lampejo, a Fipsy, a Isabel e, sem dares cavaco aos amigos, passas-te. És um chato!
Bem, acho que já acabei a evocação da tua vida e da tua obra, vou botar aqui um ponto final.
Espera, espera aí um instante que está a chegar um fax. Não me surpreende: é o São Pedro a lamentar-se que não desistes de converter o Império do Céu em República Popular do Purgatório.


Livro marcante de uma época e de uma personalidade histórica do movimento surrealista português.
Belas Ilustrações de cruzeiro Seixas 
Raro e de coleção
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