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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Virgílio Martinho, Relógio de Cuco, 2ª edição ( 1ª da Estampa), Contraponto, 1997

Relógio de Cuco

Virgílio Martinho

Editora Contraponto [Luiz Pacheco]

Logotipo da Contraponto - Paulo Guilherme d'Eça Leal

Palmela

2ª edição[Março de 1997]

126p .


Livro raro (de coleção)



Virgílio Martinho ou o sentido do paraíso perdido

NA sua descida aos corredores da memória que povoaram a infância, pelos lugares perdidos e nunca esquecidos de Setúbal, Grândola, Barreiro ou Lisboa, Virgílio Martinho redescobre nas quatro histórias deste Relógio de Cuco, agora reeditado como prova de amizade e admiração literária de Luiz Pacheco, a memória das sombras e vozes que encheram esse imaginário ou paraíso perdido, numa linguagem feita de sinceridade e pouca ficção, embora pela escrita desenvolta e sincopada, povoada de imagens e sinais que chegam dos confins do tempo, reinvente o sentido de uma infância que teve os seus matizes de pobreza ou de alegria. Mas o que mais sobressalta nestas histórias que entre si nitidamente se encadeiam é, sobretudo, esse desejo de exorcizar pela memória e olhos já bem adultos os medos e conflitos que ficaram longe, nas brincadeiras despreocupadas ou na descoberta do sexo, e assim deram corpo a uma forma pessoal de estar na vida e na literatura.
Desde Orlando em Tríptico de Aventuras (1960), passando por O Grande Cidadão (1964), para desembocar neste Relógio de Cuco (1973), Virgílio Martinho sempre pautou a sua atitude de escritor em termos de uma absoluta verdade literária, que consolidou de livro a livro, obedecendo sempre a coordenadas pessoais que o fizeram aproximar-se de uma clara forma de participação política e denúncia social, ainda relacionada de perto com uma certa intervenção surrealista, evidenciada logo no livro de estreia que foi a narrativa Festa Pública (1958), mas definindo-se Virgílio Martinho como uma das vozes literárias que, longe dos círculos em que se costumam forjar as cotações, não podem ser assim tão declaradamente silenciadas.
Porém, dessa vinculação surrealista evidenciada nos primeiros livros e da sua prosa ficcionista evidenciada em A Caça e O Concerto de Buzinas, Virgílio Martinho percorre depois os caminhos de uma mais nítida intenção política que se torna significativa e expressiva no plano do teatro, como se observara a partir de Filopopulus, A Sagrada Família e 1383, adaptação e leitura muito pessoal da crónica de Fernão Lopes, pela recuperação de um discurso e propósito dramatúrgico de acentuado carácter brechtiano, que se complementou na actividade teatral que foi constante durante largos anos junto da Companhia de Teatro de Almada. Sim, é por aí que se determinam as balizas literárias de um escritor que nunca pediu licença para estar ou existir, certo e seguro da importância dos livros que publicara, sem precisar de favores de ninguém e nem sequer os exigir, embora seja bom reconhecer a qualidade de uma escrita tão coerente e pessoal que, a seu modo, sempre procurou participar e intervir na nossa vida cultural.
Por isso, relendo estas breves histórias de Relógio de Cuco, tal como já acontecera, dentro de outra perspectiva ou focagem narrativa, nos contos de O Menino Novo (1989), reconhece-se esse carácter claramente 'realista' ou o sentido e consciência de que o paraíso perdido da sua infância pôde ser reconstruído pelos fios da memória, pouco complacente e nada interessada em suavizar com outras cores o que foi da sua angústia de menino pobre, nado e criado em tempos bem cinzentos e tristes, na lembrança que sempre perdura de um pai ferroviário e da mãe às voltas com os problemas da casa, enfim, um quadro social e humano igual a tantos outros, mas que Virgílio Martinho soube recriar de forma admirável e pujante, nas belíssimas histórias agora reeditadas pela mão amiga de Luiz Pacheco.

Serafim Ferreira
VIRGÍLIO MARTINHO
RELÓGIO DE CUCO, 2ª. edição.
Ed. CONTRAPONTO / Palmela, 1997. 


Exemplar novo, capa e miolo limpos

Preço : 45 € 
com portes registados para Portugal Continental e ilhas
+ 10€ para correio registado internacional
UPS ou correio rápido a orçamentar

Pedidos a 2mitodesisifo@gmail.com ou em www.leiloes.net

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Antologia do Humor Português ( Famoso tijolo das Edições Afrodite ) acrescido da edição recente de 1969-2009 de Nuno Artur Silva e Inês Fonseca

Antologia do Humor Português

VIRGÍLIO MARTINHO, org. e notas
ERNESTO SAMPAIO, org., prefácio e notas
desenhos de Carlos Ferreiro, Eduardo Batarda, João Machado e José Rodrigues


em conjunto com


Antologia do Humor Português
Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos. 

Antologia do humor português mas só o que saiu em livro e mesmo assim há uns que, se calhar, não deviam aqui estar e outros que não estão e deviam estar. É como em tudo.

1969-2009 mais ou menos, enfim, 18 de abril de 2008, até à hora do almoço o mais tardar.
Lisboa
Texto Editores
2009.

Sobre a edição original:
Lisboa, 1969
Edições «Afrodite» de Fernando Ribeiro de Mello
tipografia União Gráfica
1.ª edição [única]
21 cm x 14,5 cm
XXVIII págs. + 1.008 págs.
ilustrado



Magnífica! A mais magnífica incursão jamais feita ao corpus de literatura portuguesa, de onde os organizadores fazem saltar um espírito, um chiste, em pleno arraial do país sisudo e sufocado pelo Estado Novo. Outras antologias saídas dessa editora foram perseguidas pelas polícias, é público e basto conhecido, como a do Conto Fantástico ou a Erótica e Satírica; mas esta, verdadeiramente, melhor expõe um país... Lembra-nos o escritor surrealista Ernesto Sampaio no texto de abertura:
«[...] O humor, que na verdade é um dos privilégios da poesia, constitui, como o amor e a vontade prática revolucionária, a única força compósita capaz de restituir ao homem a sua dignidade autêntica. [...]
[...] resta-nos mencionar o humor, no ponto de cruzamento do desejo sem meios e dos meios sem desejo, como suprema lucidez, arte de denunciar e perseguir até aos seus covis mais recônditos os absurdos de uma situação irrisória e injusta em todos os planos, de uma lei fundamentada no dinheiro, no horror ao corpo, na baixeza obrigatória do espírito, no incessante atentado ao amor, a todos os poderes de afirmação e criação do homem livre, do homem que não cabe nos esquemas daqueles que ao comprarem a sua força de trabalho pretendem comprá-lo todo, em corpo e alma. [...]»
E para não destoar do projecto, o próprio editor Ribeiro de Mello espetou com o volume a ser composto e impresso numa tipografia da esfera de influência da Igreja! E não contente com isso, o que já não foi pouco, ainda pôs na ficha técnica os nomes dos intervenientes nos trabalhos, com especial relevo para as «irmãs» e respectiva congregação!
Escusado será dizer que poucos destes exemplares terão sobrevivido após a descoberta pelos responsáveis da oficina gráfica... Tendo, assim, saído dos prelos três versões distintas da pág. 1.006: a referida; uma outra em que a folha foi guilhotinada e substituída por uma com o cólofon resumido a quatro linhas; e ainda outra (a vertente) em que todos os nomes voltam aí a figurar, mas expurgados dos cargos religiosos.


Sobre a edição possível de continuação da edição original:




Contraditando alguns dos fundamentais propósitos daquilo que se convencionou que um bom título deve patentear (concisão, precisão, facilidade de memorização, etc., emerge como inusitada a atribuição de um título tão extenso (53 palavras e 206 caracteres) a uma obra contemporânea. Os percursos e discursos humorísticos trilham justamente o caminho do desvio: a evasão à lógica cognoscível, o subterfúgio à atitude comummente ditada e aceite pela ordem social, a deslocação de significado no dizer e na intenção que subjaz a esse modo de dizer.

Em metade das palavras exibidas pelo título desta antologia direi que, em termos genéricos, o traço genealógico comum à confluência de géneros e de tipologias textuais aqui coligidos consubstancia-se no

humor, no seu registo estritamente escrito, sem recurso à imagem. Na esteira do trabalho de Fernando Ribeiro de Mello – Antologia do Humor Português –, dada à estampa em 1969, a colectânea que ora
se apresenta compila textos extraídos de obras publicadas, quer a título individual, quer colectivamente escritas, retomando o final da década de 60 do século XX, ostentando registos humorísticos até 2009
(ou melhor: “1969-2009 mais ou menos enfim, 18 de Abril de 2008”).
Ténue é a fronteira que demarca o humor de uma postura séria. Como Henri Bergson (74) propunha, no seu estudo seminal sobre o riso, todo e qualquer assunto se torna matéria passível de desencadear o riso no ser humano. Na verdade, é no contexto que radica a (in)validação do humor. Por esta razão, na “Introdução” à presente crestomatia, surge com propriedade a referência à “circunstância” a partir da qual eclode o enunciado humorístico.
Ao longo da leitura desta selecta, são oferecidas ao leitor determinadas coordenadas alusivas à biobibliografia de cada um dos autores, sendo algumas linhas dedicadas ao tipo de humor produzido, bem como às circunstâncias socioeconómicas, políticas e culturais, atinentes à criação do humor. Daí que seja legítimo que muitos dos textos evoquem uma conjuntura outra e nela aufiram sentidos outros, que a contemporaneidade se vê impossibilitada de lhes conferir. Por conseguinte, é precisamente à luz das circunstâncias, em que o humor se alicerça, que muitos dos textos recriam o seu sentido humorístico hoje em dia.
Embora o humor seja um conceito pejado de subjectivismo e de relativismo, de difícil quantificação objectiva, os textos que constituem o corpus desta antologia, exibem, grosso modo, uma concepção de jogo de palavras ou de contextos gerador de diversão e de prazer, intrínseco ao processo de desenvolvimento do ser humano.
Da manutenção do jogo que aqui se cria, ressaltam objectivamente alguns mecanismos linguísticos basilares, nomeadamente alguns recursos estilísticos (como a ironia, a hipérbole, a antítese, a repetição…) a incongruência semântica, a paródia, a intertextualidade, a ambiguidade, entre outros.
No seu cômputo geral, todos os textos coligidos obedecem aos preceitos do desvio e do jogo em que o humor desponta inadvertidamente, privilegiando um ou mais mecanismos linguísticos em detrimento de outro(s), perfazendo, assim, uma colectânea de copiosa diversidade textual, ocasionando diversos graus de riso. Não obstante, e como os próprios autores advertem no título: “(…) e mesmo assim há uns [textos do humor português] que, se calhar, não deviam aqui estar e outros que não estão e deviam estar. é como em
tudo” – existe um reduzidíssimo número de textos, de indubitável qualidade literária, que, pela sua dimensão trágica, questiona a fragilidade inerente aos limites do humor e, por conseguinte, a sua inclusão nesta obra. Porém, uma vez mais, saliento a natureza subjectiva e o carácter relativo daquilo que se pode considerar de
pendor humorístico.
Resta dizer que, mediante a proliferação do humor em registo escrito que testemunhamos quotidianamente, a próxima recolha não deverá, nem poderá aguardar tanto tem o a ser realizada como as
anteriores, pois urge apresentar e trabalhar o humor nacional com a elevada qualidade com que esta antologia se anuncia ao público português.

Exemplar muito estimado, capa e miolo limpos
Preços
Edição Afrodite: 250€
Edição Texto Editores: 75€
Comprados em conjunto: 300€
com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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