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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Luiz Pacheco. Carta-sincera a José Gomes Ferreira com uma nota do autor por causa da província. Lisboa, Contraponto,[1958]

Luiz Pacheco
Carta-sincera a José Gomes Ferreira com uma nota do autor por causa da província.
Lisboa,
Contraponto,
s.d [1958]
1ª edição
Colecão A Antologia em 1958
18,6 cm x 13,2 cm
44 págs. + 1 folha em extra-texto


Dístico: «Do polo fixo: onde inda se não sabe que outro “clerc” comece ou mundo acabe» composto em Bodoni e impresso sobre papel superior 


PEÇA DE COLECÇÃO





Transcrito de Frenesi:

Incluído nesta colecção surrealista publicada pelo pintor / poeta Mário Cesariny, o ainda editor de surrealistas e abjeccionistas Luiz Pacheco sugere aqui, com inusitada verve e o correcto estilo literário, ao já então grande poeta José Gomes Ferreira que se deixe de «croniquetas» nos periódicos, isto a propósito de certa coluna jornalística – «À Porta da Livraria» – que este alimentava no Ler: «[...] elas têm estilo lá isso têm e não é mau. Mas ó diacho! é o estilo dos poemas, é a imagética dos poemas, é o vocabulário dos poemas, é tudo dos poemas! E então ficamos preocupados e um tudo-nada suspeitosos: os corvos de névoa, pântanos de cinzas, séculos de musgo, as chagas de grilhetas, verdades de punhal, criptas de morcegos, soluços de chicote, sonâmbulos de trapos, lençois de êxito, horizontes moles, chicotes de unhas, cidades de fome, luar dos ossos, dentes do coração, cabelos dos charcos, lágrimas de areia que criavam tão forte ambiente também servem para falar de porcarias do Chiado?!... então o Poeta não dá poemas e dá isto?! é então isto que o preocupa agora? e o resto? as lágrimas dos outros? o mundo dos outros? José Gomes Ferreira pode estar a escrever em casa um, dois, três livros de poemas ou seja o que for óptimos, sublimes. Não sei, não tenho nada com isso, ainda que me interessasse sabê-lo. O que não pode é entretanto mostrar ao público as plumas negras que tinha no lixo do saguão. Mais vale estar calado. [...]»

Exemplar muito estimado, capa e miolo limpo

Preço : 200 € 
com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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Natália Correia A questão académica de 1907 Ano: s/d [1962] 1ª Edição

Natália Correia

A questão académica de 1907

Ano: s/d  [1962]

1ª Edição

Lisboa

Minotauro/Seara Nova

 In-8º de 243 (1) páginas

Brochado

prefácio de Mário Braga


“O trabalho de Natália Correia é uma análise objectiva da questão que, em 1907, ergueu a juventude académica portuguesa contra as envelhecidas estruturas políticas em desagregação ...”O movimento académico de 1907 eclodiu, pois, numa atmosfera de contestação ao poder instituído e sobretudo aos métodos de ensino universitário, verificando-se, no dizer expressivo de Natália Correia, “o choque entre uma Academia insofrida por um ensino racional e livre e uma cátedra impermeável a esse anseio da juventude” (1962, p. 37). E a greve dos estudantes universitários de Coimbra alastrou por liceus e Escolas Superiores e Técnicas de Lisboa e Porto, pela Academia de Belas-Artes e pelo Conservatório Nacional de Música.



Exemplar com algumas manchas de humidade nas capas  e lombada, miolo em bom estado de conservação.

Preço 45€
com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Natália Correia. O Homúnculo. Tragédia jocosa com 4 ilustrações da autora. Lisboa: Contraponto, 1ª edição, 1965

Natália Correia
O Homúnculo
Tragédia jocosa com 4 ilustrações da autora.
Lisboa
Contraponto [Luiz Pacheco]
1ª edição
4 ilustrações "hors-texte" de Natália Correia
1964



2 exemplares ambos muito estimados, capa, lombada, miolo irrepreensíveis. Ambos valorizados pela dedicatória da autora:

1) Ao Jornal Diário de Notícias em data não identificada
2) Ao poeta e republicano Alfredo Guisado em 1964. A edição é distribuida em 1965 e proibida, mas muitos distribuidos desta forma sobreviveram e circularam clandestinamente.

Livro apreendido pela censura e que terá levado o Ditador Salazar a dar ordens expressas a Silva Pais, Diretor da PIDE/DGS, para que: "Apreendam a obra, prenda-na, mas não lhe toquem. É uma mulher muito inteligente"


 






 Preços : 
Com dedicatória ao Diário de Notícias  - 150 € 
Com dedicatória ao poeta Alfredo Guisado - 170€

com portes registados para Portugal Continental e ilhas
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O Homúnculo – Tragédia Jocosa (1ª edição: 1965)

transcrito de Peças Breves no Teatro Escrito de Natália Correia - Armando Nascimento Rosa
ESTCL



E uma das vias pessoais trilhadas por Natália, para além de um eros fl amejante que lhe é congénito, é essa sua predilecção pelo riso catártico, liberador do indivíduo face aos condicionalismos políticos de um meio cultural asfi xiante e mesquinho: «se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão» (Correia, 2001: 8); escreverá ela mais tarde, em 1983, num prólogo, em jeito de ultimato anarquista, ao volume decontos A Ilha de Circe. Daí que o sucedâneo dramatúrgico da feiticeira Cotovia seja de facto uma peça que acentua o registo do escárnio através de uma forma dramática breve; uma «sátira política», no dizer da autora (Lello, 1988: 23), que apresenta estratégias de delírio surreal e absurdista para retratar Salazar e seus acólitos no pequeno palco das misérias lusitanas. O Homúnculo – Tragédia Jocosa, assim se chama a peça com a qual Natália afi rmaria ter começado a escrever deliberadamente para a cena (Lello,1988: 23), talvez porque neste texto a consciência dramatúrgica dos processos cénicos suplante os expedientes verbais da poetisa virtuosa. Publicado em 1965, pelo temerário editor e escritor Luiz Pacheco (n. 1925), com quatro ilustrações da autora (numa técnica mista de pintura e colagem, em sugestivas imagens de um grotesco surreal), o livro é imediatamente apreendido pela PIDE, tornando-se um texto clandestino que passa secretamente de mão em mão como senha conspiratória. Peça breve em cinco quadros, O Homúnculo é uma das raras obras mestras (conjuntamente com O Clube dos Antropófagos, de Manuel de Lima, escrita em 1957, enquanto o autor era hóspede da casa de Natália, em Lisboa) que no teatro português consegue operar o cruzamento entre a estética surrealista, o teatro do absurdo, e a sátira política.



Decorrendo a acção «no palácio de el-rei Salarim, senhor absolutíssimo da Mortocália » (Correia, 1965: 11), os jogos onomásticos e semânticos são provocatoriamentetransparentes: se  o nome Salarim remete para o ditador, já o lugar mortuário da fábula, Mortocália, é o epónimo fabulístico que designa o Portugal da ditadura, que sacrifica a sua juventude numa guerra colonial em África, iniciada em 1961, quatro anos antes da publicação do texto. Reino de thanatos ainda, porque repressor do princípio de eros; no qual o sádico Salarim proíbe o acto de urinar, metáfora explícita do sexo: «ordenando que se obstruissem os orifícios por onde machos e fêmeas (...) se obstinavam em praticar essa antiga necessidade» (Correia, 1965: 21) A didascália longa com que a peça abre convida mesmo a que seja lida em cena por um ou vários actores, dada a informação cenológica que disponibiliza, com uma vivacidade de escrita corrosiva.

Veja-se a descrição trágico-paródica do protagonista:

Salarim tem nariz (ou bico) arqueado e dois olhos de fogo muito juntos, situados quase no alto da cabeça. Da sua idade só se pode dizer que por meios naturais era de esperar que já tivesse morrido há muito tempo, mas que por outros meios, talvez sobrenaturais (há quem diga que usando em proveito próprio o tempo que roubou aos súbditos), conseguiu suster a foice, sempre que a morte julgou chegada a altura de ceifar os seus muito esticados anos. (Correia, 1965: 11)

As figuras dramáticas d’ O Homúnculo situam-se, como vemos por este exemplodescri tivo, na categoria ubuesca de títeres caricaturais, nos quais um recorte de surrealismo expressionista exibe, de forma bem legível, a correspondente tipificação alegórica. Assim, para além de Salarim, que parodia Salazar, temos, logo na contracena do primeiro quadro, a presença do Bispo; jogando na cena essa cumplicidade perversa entre o poder político e o eclesiástico, que caracterizou o fascismo lusitano; nomeadamente numa submissão equívoca da Igreja católica face ao status quo ideológico do Estado Novo. Equivocidade que a peça desenvolve, já que a máscara de servidão do Bispo (onde é inevitável vermos satirizado o cardeal Cerejeira, aliado eclesial de Salazar) serve para que este consiga controlar a seu favor o megalómano e solitário Salarim.

Uma fala desconcertada do ditador, dirigida ao Bispo, demonstra-o:

SALARIM: Já estás a falar demais. Quando te comprei tinhas um silêncio verdadeiramente

colaborador. A tua tagarelice perturba-me. (Leva as mãos à cabeça.)

Sinto-me tonto, confuso... Desconheço-me... (ibid.: 16)

Por sua vez, o bobo Mnemésicus denuncia o seu alegorismo ácido no fi gurino que enverga, uma vez que vem «vestido de catedrático» (Correia, 1965: 16); sátira acrescida, portanto. O poder cultural legitimado, que a instituição universitária representa, surge na peça sob a identidade do bobo de Salarim, de quem este depende a ponto de chamá-lo, sintomaticamente: «Mnemésicus, minha alma!», ou «sol do meu espírito» (ibid.: 16). Temos pois nestas duas duplas que Salarim constitui, ora com o Bispo, ora com o Bobo, dois ecos dramatúrgicos paródicos bem distintos: no primeiro caso, as sado-burlescas parelhas beckettianas (Hamm e Clov, de Fim de Partida, por exemplo);
no segundo caso, a referência ao par shakespeariano do rei louco Lear e do seu sábio Bobo (é por isso de sublinhar o facto de o discurso de Salarim conhecer um arrebatamento monologante no momento de entrada em cena de Mnemésicus, o seu intelectual conselheiro). Ante a inveja do Bispo, Salarim prostra-se e humilha-se à chegada desse seu Bobo académico, um duplo que lhe insufla sopro anímico; e estabelece com eleuma dependência erodramática que a retórica infl amada de Salarim verbalizara: «Sem ti anoiteço. Extingue-se a minha condição reinante e revela-se a minha propensão paraverme» (ibid.: 16).

O poder militar comparece também, inevitavelmente, a abrir o segundo quadro, através da fi gura patética do General, que se entusiasma mais com a agricultura do seu quintal doméstico, do que com as lides da guerra; caricatura de um Portugal ensimesmado e eminentemente rural, reduzido à condição de curiosidade turística, que de súbito é atirado para uma guerra africana com a qual pouco se identifica. A obsessão genocida de Salarim, para com o povo de Mortocália, é flagrante na sua perversão de misógino em que «os vícios solitários» são as «sentinelas da abstinência», tendo por «amante perpétua (...) uma hidra com dez milhões de cabeças», que podiam ser ainda mais «não fossem a avitaminose, a mortalidade infantil e a emigração» (ibid.: 18). Ao seu Bobo confessor, Salarim revela a obsessão regressiva de sadismo necrófi lo com que conduz os destinos de uma Mortocália, submissa do poderio norte-americano, face ao qual não aspira a ser nada mais do que estância turística:

SALARIM: (...) Mas o prato substancial do turista americano é a arquitectura local: os jazigos. Não se trata precisamente de dar sepultura aos mortos. Urge acabar de uma vez para sempre com essa superstição que nos legaram os gregos. Somos um povo progressivo. Tão progressivo que atingimos a transcendência de uma preocupação oposta: dar mortos às sepulturas. O ritmo de construção é alucinante. Não minto se disser que mandei edifi car alguns milhões de sepulturas. Tantas sepulturas quantas cabeças tem a minha hidra. (ibid.: 21)

O curioso é ver que nesta farsa de fantoches humanos será o Bispo a incitar o General para que este se rebele em armas (mas de uma forma não sangrenta, conforme à hipocrisia dos católicos costumes), contra o despotismo demente de um Salarim dominado pela ascendência do Bobo académico. Para convencer o militar campónio, o Bispo tem de disfarçar-se de demónio chifrudo de modo a assustar o General, por forma a que este julgue que arderá nas chamas infernais caso não se revolte contra o poder do ditador. Porém, o General entusiasma-se no seu ardor de insurrecto e já pensa em assassinar Salarim, para espanto do manhoso Bispo, que vai sempre lançando apartes de comentário teatral em voz alta.

BISPO (aparte): Tomou-me o freio nos dentes! Tenho que segurá-lo antes que ultrapasse os dois mil anos da nossa santa sabedoria! (Alto) Cuidado, meu fi lho! Não te deixes tentar. Salarim é rei. Foi sagrado. Não pequemos. A Igreja é contra o regicídio.(ibid.: 25)

O objectivo do Bispo (alegoria da Igreja) é manipular o General (personificação do poder militar) para aniquilar o Bobo Mnemésicus (o poder intelectual), eliminando assim a infl uência deste junto do ditador Salarim, para que só o Bispo ocupe esse lugar.

Os intentos do prelado intriguista serão conseguidos. Depois de dominar os impulsos do General, o Bispo ilude o Bobo, firmando com este um falso pacto revolucionário.

Ele sabe como lidar com Mnemésicus, segundo afi rma ao General: «[O Bobo] é um intelectual. A maneira de os vencer é deixá-los falar (Esfrega as mãos.) Mais tarde ou mais cedo caem na ratoeira dos próprios sons» (ibid.: 27). E é uma ratoeira que o Bispo arma ao Bobo; antes de este surgir em cena no 3º quadro, o Bispo avisa Salarim de que o seu fi el Bobo deixou de o ser e vem munido de uma pistola. O diálogo-chave entre o Bobo e Salarim (que anatomiza a natureza teatral, ilusionista, da imagem do poder que o ditador constrói de si mesmo), convencerá este de que o Bispo «papagaio» (ibid.: 29) dizia a verdade. Salarim começa por perguntar a Mnemésicus se este lhe vem dar «uma lição de História» (ibid.: 30):

BOBO: (...) A História é a raiva dos que não participam dela e é com estes que é preciso contar. Sobretudo fazer o possível para não excitar essa raiva. Concorda que tens feito muito pouco nesse sentido.

SALARIM: Sou uma personagem. Não preciso deles.

BOBO: As personagens só existem na imaginação dos cronistas. Não tens feito nada para conquistar a simpatia deles. Isso põe em risco a tua realidade. (ibid.: 30)

Na sequência de uma ardilosa esgrima dialogal, o Bobo persuade Salarim de que uma revolução de rebeldes, que já «saquearam o palácio e esvaziaram os cofres» (ibid.: 30), se prepara para o destronar e de que a única forma de ele sair com dignidade é suicidar-se. O Bobo coloca-lhe nas mãos o revólver para esse efeito, mas Salarim, em vez disso, matará a tiro o Bobo Mnemésicus (sua alma danada, ou seja sua enteléquia), sendo atacado de seguida por amnésia identitária, que, se o isenta teatralmente de responsabilidades por ter morto «este desconhecido» (ibid.: 31), tem como reverso a perda de si mesmo. Ao matar o Bobo, Salarim matou o que restava da sua consciência; nesta tragédia jocosa, ele torna-se um autómato ontológico-político:

Estou vazio, vazio. Apenas sobrevivo como um saco que se esvaziou. Oh! Oh! Quem sou eu? Quem sou eu?» (ibid.: Contém esta peripécia, ao mesmo tempo, a parábola do que sucede ao intelectual que se alia ao poder ditatorial, para usufruir dos privilégios deste; neste negócio faustiano, a sua voz acaba por ser silenciada pela conspiração dos poderes (eclesial e

militar) que lhe disputam a infl uência e o controlo do déspota.

Na peça, o triunfo pertence ao Bispo, com o seu evangelho equívoco que prega sentenças deste género: «A guerra é precisa para trazer a paz»; «O descontentamento e a subalimentação são o que resta de espiritual no horizonte humano»; «A agricultura garante-nos um certo estado de indigência necessário à vida do espírito». E é sob o signo agrícola, no quarto quadro que «descem do céu três anjos barrocos com trombetas que fi cam suspensos no ar», e cantam uma hossana sociocrítica, nada angélica, representando os poderes da alta fi nança, ou seja, «os cofres celestiais» (ibid.: 35).

Salarim imbecilizado é agora, como o diz o Bispo, não «mais do que uma sombra, uma aparência, uma alma perdida, vagabunda». A pedido mais uma vez do Bispo, o General dita a Salarim aquilo que ele deve ser: um patriota, que poderá mostrar-se útil às searas contra o ataque de «aves ruins» (ibid.: 36). Salarim será pois nada mais que um «espantalho » reinante, numa representação, do poder agónico, análoga ao final daquela que é a mais impressionante fábula política do teatro português da primeira metade do 
século XX: O Fim (1909), de António Patrício (1878-1930); peça em vários aspectos precursora da tragicidade absurda de Beckett e da crueldade psicotrópica de Artaud, em cujo decadentismo expressionista se efabulava premonitoriamente a queda da monarquia portuguesa, pela transfiguração poético-trágica da leariana Rainha-avó Maria Pia, que enlouquecera na sequência do regicídio de 1908. E se no fi nal da peça de Patrício se chamavam os corvos para cumprir a função de aves necrófagas, no quinto quadro d’ O Homúnculo, a condição de espantalho é encarnada verbalmente por um Salarim «manifestamente demente», numa fala longa, que descreve os estragos orgânicos que as diferentes espécies de aves fazem, devorando o seu corpo. Na irrisão cénica que a peça propõe, com nítidos contornos absurdistas, o drama prometeico é aqui reduzido ao esventrar de um espantalho, ao qual já não se apropria sequer a designação inumana, mas alquímica, de homúnculo com que o título nomeia o protagonista.

Ao coro de anjos celestes opõem-se, em terreno contraponto, quatro ceifeiras que «trazem as duas metades de um pano toscamente pintado representando uma seara» (ibid.: 36). Podemos classifi car o bizarro confronto coral com que a peça termina, entre anjos e ceifeiras, como uma paródia negra (ou tragédia jocosa, segundo o subtítulo nataliano) que joga surrealmente com tópicos correntes, à época, da literatura marxista do neo-realismo, nomeadamente no que respeita ao confl ito de classes, entre dominadores e dominados, exploradores e explorados; confl ito com que em riso amargo se retrata o país de então, preso ao triplo subdesenvolvimento rural, cultural, e espiritual:

ANJOS: Mas só no Dia do Juízo se distribuem as riquezas.

CEIFEIRAS: As nossas almas engordemos morrendo pelos donos destes campos.

ANJOS: Por entre as nuvens vos aparecemos...

CEIFEIRAS: Bendita a fome que faz ver anjos! (ibid.: 38)

O Homúnculo (1965) surge-nos como a primeira obra de um conjunto de três peças para as quais propomos a designação de trilogia de mitos lusitanos, fundada em afinidades que nos parecem irmaná-las, já que, sublinhe-se, nunca esta nomenclatura e este agrupamento textual fossem sugeridos pela autora. A Pécora (com edição boicotada em 1967) e O Encoberto (1969) são as outras duas obras que integrarão tal trilogia. Para além de serem textos que Natália comporá em sequência e proximidade cronológicas, a similaridade na concepção estilística dos títulos indicia logo à partida um parentesco que os temas desenvolvidos, por cada um dos dramas, confirmarão. A designação nominal, comum a cada uma destas peças (constituída, repare-se, por umsubstantivo singular, com artigo defi nido), visa colocar no palco, com intentos fabulísticos, imaginativos e provocatórios, mitos específi cos da realidade histórico-política e/ou psico-religiosa portuguesa; daí, por isso, esta opção pela denominação, objectiva e irónica, de trilogia de mitos lusitano. Assim, enquanto O Homúnculo se ocupou com o automitificado ditador Salazar, já A Pécora esconde uma virulenta parábola motivada livre e libertinamente pelo fenómeno controverso das aparições marianas de Fátima, em 1917; se bem que os dados dramatúrgicos utilizados se mostrem antes bastante mais próximos dos que envolveram as fraudulentas aparições de La Salette, em França, ocorridas em 1846, data próxima desse fi nal do séc. XIX que vem a ser o tempo histórico-dramático da peça. Por sua vez, O Encoberto será a criação teatral nataliana a dar voz a um mito messiânico persistente no imaginário lusíada: o do rei D. Sebastião, morto jovem no norte de África, na batalha de Alcácer Quibir, em 1578 (data que assinala o ocaso da aventura expansionista marítima portuguesa), em torno do qual se gerou a lenda de que ele haveria de regressar vivo e salvífi co numa manhã de nevoeiro, como se de um heróico Godot se tratasse. É de assinalar que o mito sebástico, para o qual Almeida Garrett desafi ara em 1837 os dramaturgos vindouros, haveria de dar origem, sob distintas interpretações pessoais, a outras duas obras representativas do teatro escrito português do século XX: O Indesejado (1945), de Jorge de Sena, e El-Rei Sebastião (1949), de José Régio; bem como ainda ao drama inacabado O Rei de Sempre, de António Patrício (de que restam cenas fragmentárias datadas de 1914).


O HOMÚNCULO DE PENFIELD.
cit Wikipedia


Aluno de Charles Sherrington (1857-1952), considerado por muitos o pai da neurociência de sistemas, o neurocirurgião Wilder Penfield (1891-1976) foi o responsável pelo início da revolução na compreensão do cérebro.

Através de suas observações, obtidas durante procedimentos neurocirúrgicos para remoção de focos epilépticos corticais durante 19 anos, em pacientes cuja epilepsia não podia ser contida com medicamentos, Penfield mapeou o tipo de sensações táteis geradas por estimulações elétricas de regiões corticais localizadas à frente e atrás do sulco central.

Gerou-se, assim, a imagem mítica do Homúnculo e foi dado um passo gigantesco na compreensão do funcionamento do cérebro por via de populações.

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Natália Correia. Cântico de País emerso. Contraponto, 1ª edição, 1961

Natália Correia

Cântico do País Emerso

Porto [ind. tipog.],

 s.d. [1961]

Contraponto [de Luiz Pacheco]

1.ª edição

22,9 cm x 17,3 cm

40 págs.


Peça de colecção

Obra de imediato proibida pela censura, circulou clandestinamente, dado o poema celebrar a acção revolucionária de Henrique Galvão ao tomar de assalto o Santa Maria, navio que, depois, irá servir ao regime colonial como cargueiro de tropas «para Angola já, e em força!».

cit de Frenesi Livros.






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Natália Correia, Aconteceu no bairro. Casa do Livro, 1ª edição, 1946

Natália Correia
Aconteceu no bairro
Lisboa, 1946
Edição da Casa do Livro
1.ª edição
18,5 cm x 13,6 cm
300 págs.

2º livro da autora - Raro


Romance do período anterior ao mergulho lustral da autora açoreana no surrealismo – coisa que só aconteceu nos finais dos anos 50 do século XX –, vive literariamente de um certo realismo com antecedentes no Raul Brandão de Húmus. Num outro plano, pela teia social que liga as suas personagens femininas, pode ser encarado também como um “libelo” feminista.
cit. Frenesi Livros.




Exemplar em bom estado de conservação, contracapa empoeirada. miolo limpo e cadernos sem serem aparados

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Pierre Mendés-France, A crise francesa de maio. Propostas para uma acção Porto, Brasília Editora, 1ª edição, 1968

Pierre Mendés France
A crise francesa de maio: Propostas para uma acção
Uma cronologia dos acontecimentos
Brasília Editora
Porto
1ª edição
1968
Tradução Mário T. Alves
Copyright J Carvalho Branco Editor
Coleção Dossier-Leitura 1
162p.










Pierre Mendès France (Pierre, Isaac, Isidore[réf. nécessaire]), surnommé PMF, né le 11 janvier 1907 à Paris et décédé le 18 octobre 1982 dans la même ville, est un homme politique français.
Sa vie politique commence lors de son élection comme député de l'Eure, en 1932. Radical-socialiste, il participe à la coalition du Front populaire. Il participe au gouvernement quelques semaines en 1938, sous l'égide de Léon Blum, puis de 1944 à 1945, dans la mouvance du général de Gaulle. Pendant la Seconde Guerre mondiale, il entre dans la Résistance, rejoignant les Forces aériennes françaises libres.
Nommé président du Conseil par le président René Coty, en juin 1954, il cumule cette fonction avec celle de ministre des Affaires étrangères. Ses tentatives de réforme en Algérie entraînent la chute de son gouvernement, cible à la fois de ses adversaires colonialistes et de ses soutiens politiques habituels anti-colonialistes. Il quitte alors la présidence du gouvernement en février 1955, après avoir été renversé par l'Assemblée nationale sur la question très sensible de l'Algérie française.
Ministre d'État sans portefeuille du gouvernement Guy Mollet en 1956, il démissionne au bout de quelques mois en raison de son désaccord avec la politique du Cabinet Mollet menée en Algérie.
Il vote contre l'investiture de Charles de Gaulle à la présidence du Conseil en juin 1958, puis abandonne tous ses mandats locaux après sa défaite aux élections législatives du mois de novembre de la même année. Élu député de la 2e circonscription de l'Isère en 1967, puis battu l'année suivante, il forme un « ticket » avec Gaston Defferre lors de la campagne présidentielle de 1969.
Bien qu'il n'ait dirigé le gouvernement de la France que pendant un peu plus de sept mois, il constitue une importante figure morale pour une partie de la gauche en France. Au-delà, il demeure une référence pour la classe politique française, incarnant le symbole d'une conception exigeante de la politique.


Exemplar em bom estado, miolo limpo mas com manchas de humidade, capa e lombada em bom estado, pouco manuseado. Assinatura de posse de proprietário coevo


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Fernando Savater - Ética para um jovem. Lisboa, Publicações D. Quixote, 158p.

Fernando Savater
Ética para um jovem
Lisboa
Publicações D. Quixote
Tradução Miguel Serras Pereira
Design Atelier Henrique Cayate
- Rita Múrias
158p







Resumo:

Ética para um Jovem

Este livro, cuja leitura iniciei um pouco antes de abordar Ética em Filosofia, não refere as principais teorias ou filósofos que “brilharam” nesse campo. Tem, porém, um carácter quotidiano, abordando de forma simples e perceptível para qualquer jovem, assuntos que aparentam ser algo óbvios mas sobre os quais não reflectimos frequentemente.

Fernando Savater, filósofo espanhol, dirige-se neste livro ao seu filho Amador, tentando cativar e motivá-lo para reflexões sobre ética.

O escritor começa por invocar o “bem” (aquilo que nos convém) e o “mau” (o que não nos é favorável) e fundamenta a ideia de que a liberdade é a base de todas as nossas acções, fazendo também uma breve abordagem ao determinismo. Exemplifica estas correntes filosóficas com um exemplo concreto: comparando Heitor (o melhor guerreiro de Tróia), de Ilíada de Homero com as formigas térmitas-soldado, que protegem a sua tribo por instinto animal, ao contrário de Heitor, que é livre de escolher lutar ou não. A sua definição de Ética é, neste capítulo “a arte de viver”.

Savater insiste na noção de liberdade, referindo que nem sempre fazemos aquilo que queremos devido às circunstâncias que se impõem e que há diferentes motivos (“razão que tens ou pelo menos julgas ter para fazer alguma coisa”) que nos levam a agir, havendo três tipos diferentes de motivos: ordens (o que nos obrigam a fazer), costumes (hábitos) e caprichos (vontade impulsiva e momentânea). Menciona que os motivos têm pesos diferentes conforme as circunstâncias e que, por vezes, devemos agir autonomamente sem seguir ordens ou costumes e pondo de parte os nosso caprichos. É necessário analisar a fundo o que se faz, tendo raciocínio próprio e sabendo avaliar se uma acção é ou não positiva.

O segredo para praticar o bem é então agir em função de ter uma vida boa. Para isso, é necessário ter uma visão a longo prazo, tendo noção daquilo que será benéfico para nós mais tarde e não no instante (capricho). O autor dá-nos um exemplo bastante interessante da Bíblia, uma história de dois irmãos. Jacob, o herdeiro de uma fortuna, troca essa herança com o irmão Ésau por um prato de lentilhas, visto que se encontrava com fome após uma ida ao campo. Esta acção trouxe-lhe uma sensação de satisfação após ter comido a refeição mas rapidamente se arrependeu. Devemos sempre ponderar os nossos actos sendo imparciais relativamente às circunstâncias actuais.

É também evidenciada a ideia de que a vida boa implica socialização. É necessário que tratemos os humanos como pessoas, nunca os subvalorizando. Caso contrário, apoderar-se-á de nós uma enorme solidão que impedirá a boa vida. Partindo do exemplo do filme Citizen Kane em que Kane é um multimilionário que durante toda a sua vida usou as pessoas como um meio para alcançar riqueza. No fim da vida, morre sozinho proferindo a palavra “Rosebud”, um nome escrito no trenó com o qual Kane brincara durante a infância. São os acontecimentos com uma elevada carga emocional que realmente têm importância e não os bens materiais, facilmente substituíveis.

“Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida? Pois é a de não sermos imbecis”. Fernando Savater enfatiza o papel da consciência, o contrário da imbecilidade. Por consciência, entendem-se os seguintes aspectos: não ser passivo , “saber que nem tudo vai dar ao mesmo”; analisar cuidadosamente o que nos rodeia, assumirmo-nos livres e responsáveis pelas consequências do que fazemos. Uma das partes que me chamou mais a atenção ao longo do livro foi a sua análise ao egoísmo: “Só deveríamos chamar egoísta consequente àquele que deveras sabe o que lhe convém para viver e se esforça para consegui-lo. O que se entrega a tudo o que lhe causa mal gostaria, no fundo, de ser egoísta, mas não o sabe”. As consequências que as más acções acartam nunca são tão dolorosas como os remorsos, o peso da consciência, que inexplicavelmente pesa sobre nós e nos persegue sem que sejamos perseguidos por mais ninguém, o que só acontece pela noção presente de que somos livres e de que a nossa liberdade não foi bem usada. Contudo, devemos afirmar-nos responsáveis por qualquer acção, pois “cada um dos meus actos me vai definindo, me vai inventando”.

O filósofo insiste na ideia de “pessoa”, atribuindo um dos princípios básicos da Ética à empatia: é necessário pormo-nos no lugar dos outros, daqueles que a nós são semelhantes (humanos), visto que isoladamente, não há qualquer necessidade de ter em consideração os interesses dos outros. Um imperador e filósofo de Roma, Marco Aurélio, dizia para si próprio: “Quando hoje te levantares, pensa que ao longo do dia te vais encontrar com algum mentiroso, com algum ladrão, com algum adúltero, com algum assassino. E lembra-te de que os deves tratar como homens, pois são tão humanos como tu e são para ti indispensáveis como o maxilar inferior o é para o superior”. Sem o contacto humano, não seria possível viver humanamente. É necessário levar o próximo a sério mesmo que nem sempre os seus actos sejam dignos. Só assim se instalará o bem.

São também referidos os diferentes tipos de prazer e o facto de que não há que recear o prazer ou fiarmo-nos em preconceitos do género. Mesmo que o prazer nos distraia, não quer dizer que algo seja mau só por nos agradar. Devemos aproveitar o melhor da vida, “Carpe Diem”. São diferenciados os prazeres que nos destroem e nos retiram dignidade (vícios) dos que nos causam alegria mas não ao ponto de cairmos no desgosto, havendo assim temperança e autonomia.

Savater conjuga os conceitos “ética” e “política” (tendo também uma obra intitulada de Política para um Jovem), dando a esta uma ideia de colectividade associada ao bem comum, baseando-se também nas ideias de justiça, igualdade…

Por fim, é sugerido ao leitor que crie o seu próprio modelo de vida boa (lei universal e autónoma), visto que não há nenhum “molde” a seguir, chamando-se o Epílogo Terás de ser tu próprio a pensar, no qual se encontra a seguinte citação de Luncien Leuwen: “Adeus, leitor amigo; tenta não gastares a tua vida a odiar e a ter medo”.

Agradou-me imenso a leitura deste livro, não só pelos exemplos concretos associados às ideias principais mas pela simplicidade, sequência e lógica do texto. Foi extremamente enriquecedor e suscitou-me momentos de reflexão, pelo que pretendo ler mais obras de Fernando Savater.

"...E se a solidão for completa e definitiva, todas as coisas se volvem irremediavelmente amargas."

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